domingo, 10 de agosto de 2008

Deus e a Ciência em tempos de Aquecimento Global

Deus e a Ciência em tempos de Aquecimento Global

Luiz Eduardo Corrêa Lima

Parece que nem o mais idiota dos homens duvida de que o Aquecimento Global é um fato consumado e a julgar pelo nível da situação, as coisas só tendem a piorar. Não há nem ameaça de que serão tomadas algumas providências, até porque a maioria das pessoas não sabe e os administradores não querem saber que providências deverão ser tomadas. Na prática está todo mundo esperando um milagre de Deus ou uma ação genial da Ciência.
Os que esperam o milagre divino estão rezando muito e os que esperam a mágica científica estão torcendo bastante, porém ninguém está efetivamente fazendo absolutamente nada. Todo mundo fala sobre o assunto, mas ninguém move uma palha para tentar resolvê-lo. Assim, salvo engano maior, devo dizer que o fim está próximo. Entretanto, de qualquer forma vou discutir um pouco mais sobre o assunto.
Historicamente, temos a mania de achar que a Ciência e a Tecnologia vão resolver tudo e que algum cientista vai inventar um “aparelhinho mágico” que irá desaquecer o planeta, porque sempre foi assim. Na hora exata sempre acontece alguma coisa que acerta tudo. Isto é, até aqui, Deus ajudou e/ou a Ciência sempre deu um jeito em tudo. Porém, dessa feita são os próprios cientistas que estão dizendo que não sabem o que fazer e que a coisa parece não ter solução, haja vista que já ultrapassamos o limite do possível.
Aqueles que só apelam para Deus na hora do perigo e que, por isso mesmo, estão esperando um milagre divino, já não têm mais dúvidas de que esse é apenas mais um castigo de Deus para assustar ao homem pelas mazelas da humanidade. Deste modo, eles estão cientes de que não há com o que se preocupar, porque Deus não deixará nenhum mal cair sobre o homem e sobre o planeta Terra. Enquanto isso, o Aquecimento Global continua em ritmo veloz e suas conseqüências são cada vez mais evidentes e mais desastrosas.
De qualquer forma, acaba de sair o terceiro relatório do IPCC, onde os cientistas afirmam que, apesar de não haver mais retorno, pois já ultrapassamos o limite do admissível e o processo está em franco andamento, porém, ainda é possível minimizar os seus efeitos. Entretanto, a conta a ser paga certamente será “muito cara” e, a princípio ninguém vai querer pagar. Assim, o tempo passa e nós ficamos na mesma situação, temos um problema que não podemos resolver, mas que podemos minimizar, porém como isso custa caro, nós não fazemos nada e a situação só tende a piorar.
Desta forma, vamos empurrando com a barriga até onde Deus quiser. Que bom que até aqui Deus esteve do nosso lado e segurou as pontas, mas até quando isso vai ser possível?
É preciso que se pare de especular entorno do quanto vai custar e de quem vai pagar, pois todos já estão pagando muito mais caro do que deveriam efetivamente pagar se alguém já tivesse se manifestado em prol da vida e do planeta. Não adianta discutir os custos, é preciso que sejam resolvidos os problemas. Os países ricos, que até aqui usaram e abusaram do direito de poluir e degradar, que até aqui utilizaram os recursos naturais indiscriminadamente, que até aqui foram os que mais produziram danos ambientais e que até aqui são os maiores culpados pelo atual estado de coisas, devem ser responsabilizados e devem efetivamente pagar pelos custos da tentativa de recuperação do planeta.
Não há como pensar diferente, sendo assim, não há o que discutir. As Entidades Internacionais Organizadas, particularmente a ONU, têm que exigir que os países ricos assumam a responsabilidade pelos acontecimentos e comecem a grande empreitada de tentar minimizar os danos causados ao planeta. Eles poderão perder alguma coisa, economicamente, mas continuarão sendo países ricos. Entretanto, se nada for feito, eles não só deixarão de ser ricos, como, da mesma maneira que os pobres, eles deixarão de existir. Será que é tão difícil entender esta questão? Temos apenas duas alternativas: ou tentamos salvar o planeta custe o que custar, graças ao pagamento de quem pode pagar ou morremos todos, independente da condição econômica que tenhamos.
Os ricos e os pobres têm que se unir em torno da primeira alternativa, porque esta, além de ser única alternativa economicamente viável é também a única que poderá garantir a continuidade da espécie humana e do planeta. Os pobres se quiserem viver, têm que pressionar os ricos para que cumpram sua obrigação e os ricos, se quiserem viver, têm que pagar todas as contas que forem necessárias.
Em quanto isso, Deus, que segundo Einstein, não joga dados, está só observando o total acumulado das apostas e deixando que nós, pobres mortais, joguemos os dados por nossa conta. Não tenho dúvidas de que a Natureza não está contra o homem, porém, por outro lado, tenho certeza de que ela está do lado de Deus. Enquanto isso, a maioria dos homens de Poder continua rezando de braços cruzados ou com as mãos fechadas dentro dos bolsos só para ver o que acontece.
Lamento informar, mas quem continuar apostando na Mágica da Ciência vai perder e quem continuar esperando a Boa Vontade de Deus também, porque a Ciência já jogou a toalha e Deus, pelo menos dessa vez, parece que não está querendo tomar nenhum Partido. Aguardemos os próximos acontecimentos, se ainda houver tempo...

Luiz Eduardo Corrêa Lima

A IDÉIA DA QUALIDADE DE VIDA

A IDÉIA DA QUALIDADE DE VIDA

Luiz Eduardo Corrêa Lima

A expressão “qualidade de vida”, hoje muito repetida em todos os meios sociais, apresenta, além da sua sonoridade agradável, dois conceitos fundamentais implícitos em seu significado. O primeiro desses conceitos diz respeito à vida, aos seres vivos e à permanência dos seres vivos e da vida no planeta. O segundo conceito diz respeito à qualidade, à idéia de ser melhor e da permanência na condição de superior.
Esses dois conceitos, se entendidos amplamente, implicam em tornar a vida dos seres vivos (inclusive e principalmente o homem) e do planeta, na melhor condição possível. É preciso tentar manter a melhor condição de vida ao longo do tempo e, dentro do possível, procurar melhorá-la ainda mais.
Obviamente, é muito difícil manter e melhorar a qualidade de vida, principalmente num mundo conturbado por guerras absurdas e por conflitos injustificáveis. Mais difícil ainda, num país como o nosso, cheio de contrastes naturais e sociais. Porém, essa é uma “necessidade” (condição) da sociedade humana e da modernidade e, ainda que não concordemos em tese, não podemos nos furtar a isso na prática. O “monstro” tem, lamentavelmente, sido muito maior do que nós.
Mas, ainda assim, temos que continuar trabalhando para melhorar a qualidade de vida, embora não estejamos conseguindo caminhar muito nesse sentido. Isso acontece, porque estamos, sociologicamente, entendendo as coisas de uma forma errada e, por conta disso, estamos também definindo posições erradas.
Ao que parece, a palavra conforto, que indica bem-estar, é o melhor sinônimo sociológico para a expressão “qualidade de vida”. Mas, por outro lado, certamente, não é este o conceito biológico-naturalístico para esta expressão. Vamos discutir um pouco sobre isso, para vermos de qual das duas maneiras deveremos passar a entender e utilizar a palavra conforto.
Do ponto de vista biológico, a “qualidade de vida” consiste numa série de condições, que variam desde o ambiente básico onde a espécie em questão vive, alimenta-se, reproduz-se, desenvolve-se e relaciona-se com outras espécies, até o bem-estar material que pode vir a beneficiá-la. Quer dizer, o conforto é apenas uma parte do todo, primeiro é preciso estar vivo e bem, para depois se pensar em ter conforto.
Por exemplo, a qualidade do ar ou da água não são questões de bem estar material, mas sim necessidades básicas para os organismos vivos (inclusive o homem) que precisam estar enquadrados dentro da qualidade de vida que se quer ter. Ar puro e água limpa não são apenas confortáveis, são necessários à vida. Não importa se a água é filtrada ou se o ar é refrigerado, o que importa é que ambos existam para se manter a vida.
Os adjetivos não são vitais, os substantivos é que são. Não adianta adjetivar (qualificar) o que não existe. Sem água e sem ar a vida se extingue e pronto. Numa condição sem água e sem ar, não há como avaliar se a vida está boa ou ruim, simplesmente porque, dessa maneira não existirá vida.
O conforto é acessório, viver é que é essencial. Não adianta ter conforto, se não estivermos em condição de desfrutá-lo. Precisamos garantir a vida e depois, se possível, poderemos torná-la mais agradável (confortável). Essa inversão de valores, que norteia a vida moderna, tem que ser banida do pensamento humano.
Hoje o moderno é falar do pós-moderno, mas, ao que parece não há nada de mais primitivo do que aquilo que se chama de “moderno”. Se quisermos de fato atingir a pós-modernidade é preciso que primeiro respeitemos as questões primitivas e que atinjamos a modernidade de fato. Nossa civilização precisa por o “pé no chão”e “acordar”, pois aquilo que temos chamado, ao longo do tempo, de modernidade, talvez, seja mais um dos grandes males sociológicos, que atuam na degradação da qualidade de vida do homem e do planeta como um todo.
A qualidade de vida do homem tem que estar relacionada com os valores naturais básicos, anteriormente aos valores sócio-culturais que são secundários. O termo secundário na sentença anterior foi colocado com a intenção exata de significar “menos importante”, porém não pretendo admitir que os valores sócio-culturais sejam irrelevantes. E digo mais, a relevância desses valores será cada vez maior, quanto maior for a importância dada à vida.
É preciso que se entenda, de uma vez por todas, que viver é fundamental e que, antes de qualquer coisa, o mais importante vai ser sempre continuar vivendo. Qualquer outro aspecto que não seja a vida em si é acessório. Por melhor que seja ou por mais importante que possa parecer esse aspecto, ele será sempre acessório e dependerá sempre da existência da vida para poder ser utilizado de alguma forma e demonstrar a sua importância e o seu valor.
A importância a ser atribuída aos valores sócio-culturais deve ser menor para a vida do homem e de qualquer outra espécie, que as suas respectivas condições orgânicas. Mais importante que o ninho do passarinho é o passarinho em si. Da mesma forma, mais importante que a casa do homem é o homem em si. Não adianta começar cuidando dos acessórios, primeiramente tem que se cuidar do essencial (fundamental) e no que tange à vida, o fundamental é sempre o organismo vivo.
No caso em questão, organismo humano, vamos imaginar a seguinte situação: um homem rico e culto, com todas as condições sócio-econômicas satisfeitas, encontra-se perdido no meio do Deserto do Saara. Qual a qualidade de vida desse homem? No Saara, um beduíno local, certamente terá melhor qualidade de vida que qualquer outro homem, pois ele está adaptado às condições locais. Conhece todo o ecossistema à sua volta e sabe o que pode e o que não pode fazer. De nada adianta a cultura e o dinheiro do homem rico no Saara, assim como quase nada da cultura do beduíno adiantaria para ele numa cidade grande.
Em suma, o conceito de qualidade de vida perpassa por vários aspectos e transcende a fronteira do bem-estar estritamente material. Do jeito que as coisas estão caminhando, será muito difícil atingir e manter a qualidade de vida para nós humanos, pois estamos muito preocupados com o conforto e estamos esquecendo outros valores. Para nós, viver bem, passou a ser sinônimo de viver confortavelmente, mas esta não é necessariamente uma verdade, pois ter conforto é bom, porém não é essencial. O essencial é viver, a confortabilidade é uma qualidade desejável, porém acessória à condição do ser vivo. É preciso que nos atentemos para esse aspecto.
Nossa vida melhor, nem sempre depende, da casa melhor, do carro melhor, do computador melhor. Às vezes, depende apenas de acampar na floresta, ir à praia, andar a pé, fazer cálculos mentais e outras coisas, às vezes, mais “desconfortáveis”. O conforto deve ser um objetivo a ser alcançado, desde que estejam satisfeitas outras condições básicas de maior significado para a manutenção da qualidade de vida.
A própria seleção natural leva os organismos vivos a procurar condições cada vez melhores (mais favoráveis) para a sua manutenção. No entanto, a seleção natural não permite que os organismos vivos se mantenham totalmente longe de uma busca por condições melhores. Ao que parece, a vida procura, cada vez mais, viver. O conforto ideal é permanecer vivo, ainda que sociologicamente isso represente um desconforto, pois é uma eterna luta pela manutenção da condição de organismo vivo.

A Questão da Monocultura do Eucalipto no Vale do Paraíba

A Questão da Monocultura de Eucalipto no Vale do Paraíba

Luiz Eduardo Corrêa Lima

Já faz alguns anos, 20 pelo menos, que a região do Vale do Paraíba vem sendo “invadida” pelas “florestas plantadas de eucaliptos”. No início eram várias as empresas que atuavam na área: Florin, Dezorzi, Suzano, Papel Simão, mas hoje tudo é praticamente de uma única empresa, a Votorantim (VPC). Embora o número de empresas que atuam no setor tenha diminuído, o problema em si tem aumentado muito e agora atingiu proporções sem precedentes, haja vista que hoje existem mais de 300 fazendas na região com plantações significativas de eucaliptos. Alguns municípios da região têm mais áreas plantadas com eucalipto do que com qualquer outro uso ocupacional.
Quero deixar aqui claramente exposto que não vou defender uma posição contrária ou a favor do plantio de eucalipto no mundo, vou apenas tentar discutir o problema no Vale do Paraíba, do ponto de vista histórico, social e ambiental. Não vou fazer sensacionalismo e nem provocar uma “guerra fria” sobre o assunto, vou apenas e tão somente me ater aos fatos e a partir deles concluir.
O eucalipto foi introduzido no Brasil na década de 1930. Isso quer dizer que os bisavôs da maioria das pessoas hoje vivas, nunca viram, se quer, um pé de eucalipto, pelo menos aqui no Brasil. Desde então se passou a plantar eucalipto para a produção de carvão vegetal, depois como essência madeireira e mais recentemente se descobriu também sua aplicabilidade como matéria prima na produção de papel, além de sempre ter sido também empregado como terapêutico na área da saúde e como madeiramento estrutural na área da construção civil. Quer dizer, o eucalipto é realmente uma árvore de várias utilidades comerciais e de grande valor social e econômico.
Na época em que o eucalipto aqui chegou, nós ainda não tínhamos nenhum conhecimento acerca do que representava, do ponto de vista ambiental, a introdução de organismos exóticos e nem imaginávamos que o eucalipto fosse uma essência tão fortemente competitiva e que, além de tudo, exigia muita água do ambiente onde vivia. Nós apenas sabíamos que o eucalipto produzia uma madeira reta e bastante uniforme para ser usada como lenha, ou na carpintaria e na marcenaria.
Hoje nós temos muitas informações sobre o eucalipto, inclusive a sua capacidade de impedir que outras plantas se instalem e se desenvolvam nos locais onde ele se encontra, devido a sua capacidade competitiva. Sua exigência acentuada de água, principalmente nos primeiros anos de vida, que faz com que suas raízes pivotantes procurem água cada vez mais fundo, secando, ao longo do tempo, o ambiente à sua volta.
Ora, o Vale do Paraíba, como o nome diz é um vale banhado pelas águas do Rio Paraíba do Sul e seus afluentes e constitui-se numa região primitivamente plana e alagadiça. A vinda do eucalipto mudou um pouco essa condição, pois as áreas alagadiças foram desaparecendo, até porque uma planta como o eucalipto não se desenvolve bem num terreno alagado.
Entretanto, a condição hídrica do Vale do Paraíba e consequentemente o seu solo há muito tempo não são as mesmas do início (estado primitivo), por conta de sucessivos usos indevidos. Primeiro foram os cafezais, depois foi o pisoteio pelo gado leiteiro e o plantio da braquiária como forrageira para alimentar esse gado. O solo exauriu-se e em muitas áreas da região estagnou-se totalmente, caminhando para a desertificação e inviabilizando qualquer tipo de uso, além do industrial ou do imobiliário.
A História do Vale do Paraíba nos mostra que sempre tratamos do solo e da água abundante na região de maneira errada. Destruímos toda a Floresta Primitiva da calha do vale e se também não destruímos totalmente as Florestas de encosta das Serras do Mar e da Mantiqueira foi por causa do difícil acesso a algumas áreas.
Pouco sobrou do estado primitivo e esse pouco se encontra exatamente nas encostas das serras, pois no vale propriamente dito, toda a vegetação primitiva desapareceu. Por outro lado, mesmo os processos sucessórios naturais que se desenvolveram ao longo do tempo nas áreas abandonadas, levaram a formação de uma vegetação muito diferente daquela que anteriormente existiu na região. Em outro trabalho que publiquei (LIMA, 1989), chamei essa vegetação estranha de “cerrado valeparaibano”.
Obviamente o eucalipto não tem culpa nenhuma desses fatos, porque as fazendas com o solo exaurido e a carência de água já estavam ocorrendo na região por conta do uso indevido histórico, muito antes da chegada do eucalipto. Mas, de qualquer forma, implantar a monocultura de eucalipto numa região com as características que o Vale do Paraíba apresenta hoje é o mesmo que “tentar apagar um incêndio colocando gasolina”, ou seja, isso só aumenta o problema e o risco de desertificação.
É claro que as empresas que exploram o eucalipto têm recuperado muitas áreas e isso seria muito bom se não fosse plantado o próprio eucalipto nessas áreas ou se fosse deixada alguma coisa sobre o solo posteriormente. Quando acaba o ciclo proposto, em torno de 21 anos, se o local onde se plantou o eucalipto for novamente recuperado e plantado tudo bem. Entretanto, não é isso que acontece e depois da última retirada da madeira, dificilmente nascerá qualquer coisa naquela área, pois o solo volta a ficar totalmente incapaz de manter qualquer cultura. Assim, o processo de desertificação desencadeia-se na área.
No início da década de 1990 tive a oportunidade de escrever um pequeno artigo (LIMA, 1992), onde chamei a atenção para a desertificação na região e sugeri algumas coisas a serem feitas para minimizar o problema. De lá para cá, nada mudou. Ou melhor, quase 15 anos depois, mudou sim, certamente a situação está muito pior do que antes porque existem muito mais áreas abandonadas e nada foi feito em relação à questão.
Nosso país é o número 1 do mundo em biodiversidade natural, nada se compara ao Brasil no que diz respeito as diferentes formas de organismos vivos do planeta. Será que nós não podemos encontrar uma essência nativa menos exigente que o eucalipto para suprir e quem sabe até superar os múltiplos usos do eucalipto para o bem do Brasil, da manutenção das florestas nativas brasileiras e quem sabe até da humanidade.
No que diz respeito ao nosso Vale do Paraíba acho que transcendemos o limite do possível e temos que começar a frear a monocultura de eucalipto na região, principalmente por conta da fragilidade ambiental em conseqüência dos erros históricos. No passado não sabíamos que fazíamos errado, nós apenas errávamos. Mas hoje, temos muitas informações e todos os motivos para não errarmos mais. O interesse estritamente econômico de alguns pode nos levar a inviabilidade social e ambiental de toda a região.
Florestas plantadas só devem existir em áreas já degradadas e o Vale do Paraíba como tantas outras áreas nesse país são áreas degradadas e podem abrigar florestas plantadas. Entretanto é fundamental que compatibilize a cultura que se quer plantar com as condições biogeoquímicas e climáticas da região. O eucalipto por vários aspectos não se presta à região do Vale do Paraíba, assim como outras culturas não se prestam a outras regiões.
Apenas os empresários e os comerciantes do produto conseguem ganhar com o plantio do eucalipto. Mesmo a geração de empregos no setor é muito pequena e o nível desses empregos é baixíssimo. Além disso, alguns municípios se quer ganham alguma coisa com o plantio em seus territórios, pois as sedes das fábricas e distribuidoras das toras de madeira estão localizadas em outros municípios e todo o imposto vai para esses outros municípios.
O que está faltando nesse país é um projeto que viabilize novas tecnologias a partir da exploração de espécies nativas que possam ser economicamente viáveis. Ao invés de ficarmos imitando o resto do mundo nas coisas erradas, por que não desenvolvemos tecnologias novas com coisas nossas. Não é possível que não se encontre uma planta na flora brasileira que não possa fazer tudo o que o eucalipto faz, sem causar os problemas que ele causa. Certamente essa planta existe, o que precisamos é trabalhar no sentido de procurá-la e encontrá-la.
Há um ditado que diz que muitas vezes “o barato sai caro”. Plantar eucalipto pode ser aparentemente mais barato, entretanto, ao longo do tempo o preço a ser pago não compensará a economia obtida no início. Quem continuar duvidando que pague para ver. Mas eu, humildemente, recomendo que se reavalie essa forte tendência de achar que o eucalipto é a solução de todos os problemas humanos. No Brasil, em geral e no Vale do Paraíba, particularmente, o eucalipto só tem trazido muito mais problemas do que soluções.
De qualquer forma, entre o nada e o eucalipto, que fique o eucalipto, pois qualquer coisa é sempre melhor do que nada, mas é preciso que não se corte a floresta periodicamente. É preciso que se deixe a floresta seguir o seu curso. Isto é, como cobertura do solo, por pior que seja o eucalipto ele ajuda e algumas décadas depois o sub-bosque que se forma completa o serviço, mas é claro que, por melhor que possa parecer, nada será como antes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LIMA, L.E.C., Considerações Ecológicas sobre o Vale do Paraíba, Fundação Nacional do Tropeirismo, Caçapava e Centro Cultural Objetivo, São Paulo. 1989.

LIMA, L.E.C., A Desertificação do Vale, Jornal O Vale Paraibano, N˚. 11016, São José dos Campos, 10 de julho de 1992.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Realismo X Romantismo e a Terceira Via

Para muitos, ser romântico é negar a realidade da vida, da mesma forma que ser real é não ter absolutamente nenhum romantismo. Entretanto, eu quero defender aqui uma Terceira Via que passe pela realidade da vida, mas que defenda o amor, o afeto, o companheirismo, a amizade e todos os demais valores românticos. Até porque, entendo que não seja possível pensar de outra maneira e por mais dura, real e até cruel, que possa ser a vida, ela sempre dependerá de momentos amenos e de situações emocionais boas ou ruins.
Quando penso nas intrincadas relações entre os homens e da necessidade dessas relações serem sérias e verdadeiras, logo me vem à mente a realidade nua e crua, porém quando penso que a realidade é muito dura, procuro aparar as arestas e amenizar um pouco os danos produzidos pelas complicações nas relações. Os sentimentos que se sobrepõem à realidade nessa hora, não só mascaram sua dureza, como amenizam sua força e acalantam seus efeitos.
O romantismo, embora para muitos, fora de moda, continua existindo e constitui-se num elemento fundamental nas relações humanas. Entretanto as relações não podem ser apenas e tão somente românticas, porque assim “não dão liga”, fica faltando algo. Há necessidade de uma base concreta e real que justifique a relação. Ninguém ama por nada, assim como ninguém quer por querer ou faz por fazer. Sempre existe um algo mais, tanto real, quanto romântico, que justificam as ações. Assim, não dá para separar o realismo do romantismo. Aliás, ao contrário, devemos unir cada vez mais essas duas extremidades e procurarmos um ponto de equilíbrio entre as duas, porque aí certamente estará o melhor lugar.
Esse ponto de equilíbrio é o que eu estou chamando de Terceira Via, que embora natural, nunca foi efetivamente definida e muito menos estabelecida conceitualmente, mas precisa ser, para que se tenha a devida dimensão de sua importância nas relações humanas. Ainda que não entendamos bem o porquê, temos certeza absoluta de que uma boa razão não se faz sem paixão e nem uma boa paixão pode ser verdadeiramente boa se acontecer fora da razão. Ora, isso é a própria Terceira Via, que se quisermos conceituar, poderíamos dizer que “é aquela maneira de pensar e de agir, na qual se estabelece a realidade da ação imperante mediante o sentimento efetivo daquilo que precisa ser realizado para o cumprimento dessa ação”.
Pois, então, precisamos nos preparar sempre e agora com um pouco mais de cuidado, para esse ponto de encontro entre as componentes natural (real) e emocional (romântica). Temos que estar cientes de que isso existe e de que isso é importante para nós e para as nossas relações com as demais pessoas. Nossa vida será melhor e a vida das pessoas que convivem conosco também será, se nos preocuparmos com o ponto de equilíbrio e se nos envolvermos conscientemente com a Terceira Via.
Até aqui, muitos de nós têm sido seres perigosamente reais e penosamente românticos, ou vice–versa, mas que agora precisamos cultivar em nosso pensamento a necessidade de agirmos de maneira sóbria sobre essa situação que, embora filosoficamente seja contrastante, mas que também é fisiologicamente concludente e necessária ao nosso bem viver. Entender a necessidade da Terceira Via pode nos garantir melhores momentos, melhores dias e enfim, uma vida melhor.
Vamos trabalhar para colocar a Terceira Via na pauta das ações do cotidiano, a fim de produzirmos melhores homens e mulheres para o futuro. O equilíbrio entre o realismo e o romantismo deve ser a meta para o novo comportamento social da humanidade. O homem do futuro deverá ser um sujeito preocupado com a realidade, porém suficientemente envolvido nas questões emocionais para não cometer atitudes contra o planeta, os demais organismos vivos e principalmente contra a própria sociedade humana.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

Pequeno comentário acerca dos valores humanos.

Recentemente li uma frase que achei genial: “tem gente que é tão pobre, que só tem dinheiro”. Achei essa frase tão interessante, verdadeira e profunda que resolvi fazer alguns comentários explicativos sobre algumas questões que podem ser decorrentes da mesma. Que fique claro, desde já, que eu não pretendo aqui esgotar nada sobre o assunto, quero apenas discutir sobre algo que me parece oportuno e importante para a nossa sociedade capitalista, para o nosso hábito consumista e pela inversão total de valores que temos desenvolvido em consequência disso.

1 – Atualmente só se pensa economicamente?
Só tem valor aquilo que pode ser comprado ou vendido. Não se avaliam mais as coisas pelas coisas, ou as situações pelas situações, nem mesmo as ações e os sentimentos são avaliados, porque o dinheiro não pode comprá-los. Educação, Cultura e Meio Ambiente, por exemplo, são coisas que estão acima do valor econômico, portanto, não têm valor para a nossa sociedade atual. Infelizmente a noção de valores da maioria da sociedade está restrita aos valores econômicos. Quanto é que eu vou ganhar para fazer isso ou aquilo? Qualquer coisa feita tem que ter um valor econômico que a dimensione. Voluntarismo e altruísmo não valem absolutamente nada e são coisas que muitas pessoas não acreditam que existe. Lamentavelmente, eu mesmo já tive algumas oportunidades de comprovar que isso é um fato.
2 – Será bom lembrar as pessoas que dinheiro não serve para nada?
O dinheiro por si só não tem valor nenhum, quem tem valor são as coisas. Precisa-se do dinheiro porque é ele quem permite adquirir as coisas, mas são as coisas que têm importância e consequentemente o valor. O dinheiro é apenas um simbolismo do valor que serve para efetuar a compra e a venda das coisas. Na época do escambo não havia dinheiro, mas as coisas existiam e as pessoas sobreviviam sem dinheiro porque tinham aquilo que realmente tinha valor, ou seja, as coisas, as quais eras trocadas. O consumismo exacerbado fez criar essa noção errada de acharmos que o dinheiro é fundamental e infelizmente tem muita gente que faz qualquer coisa por dinheiro, o que não faz nenhum sentido, haja vista que o dinheiro em si não serve para nada. De que serve um milhão de dólares nas mãos de um indivíduo que está na lua e não tem condições de voltar à Terra?
3 – A riqueza independe mesmo de dinheiro?
Por mais pobre economicamente que uma pessoa possa ser, ela pode ser rica e o contrário também é verdadeiro, ou seja, por mais rica economicamente que uma pessoa possa ser, ela também pode ser pobre. Pobreza e riqueza são valores que independem de dinheiro. Somos ricos quando nos sentimos bem e somos pobres quando nos sentimos mal, independentemente de nossa conta bancária. Fazer o bem, ajudar o próximo, ser correto e ético, interferir na melhoria da qualidade de vida da comunidade são riquezas, pois são atitudes que valorizam muito as pessoas, embora necessariamente isso não lhes produza nenhuma riqueza econômica (dinheiro). Entretanto, hoje em dia, a maioria das pessoas não são levadas a pensar assim.
4 – A pobreza está na falta de caráter e de amor ao próximo?
Pessoas pobres, antes de ser aquelas que não têm dinheiro, são aquelas que só olham para o próprio umbigo (egoístas) e que fazem, tudo apenas pensando em se dar bem (Lei de Gérson). Essas pessoas muitas vezes conseguem grandes quantidades de dinheiro, porém são pobres porque não têm caráter e não sabem dividir o que têm para também ver a felicidade das outras. Essas pessoas olham outras pessoas como coisas melhores (mais ricas monetariamente) ou piores (mais pobres monetariamente) e não como seres humanos, seus semelhantes. A pobreza maior é julgar um humano apenas por suas posses econômicas e deixar de ver sua essência como pessoa humana.
5 – Quem só tem dinheiro aparentemente nem é gente?
Diz o ditado que: “gente fina é outra coisa”. Pois é, gente fina, aqui entendido como gente que tem riqueza monetária, para muitos, é realmente outra coisa. Muitos dos ricos de dinheiro acham que as outras pessoas são gente de segunda ou terceira categorias, portanto, não merecem serem tratadas da mesma maneira que as pessoas abastadas. Esses ricos se acham superiores aos demais humanos, isto é, eles pensam que estão acima desses humanos. Ora, se os humanos não ricos são gente e se os ricos estão acima dos humanos não ricos, então eles são outra coisa mesmo. O que eles pensam que são, eu não sei, mas seria melhor que eles caíssem na real e se entendessem também como seres humanos iguais aos demais.
6 – Ser monetariamente rico não é necessariamente ruim?
Em todas as sociedades e atividades humanas há gente boa e gente ruim, da mesma maneira, há pessoas monetariamente ricas boas e outras ricas ruins. Os ricos bons são aqueles que têm mais do que o dinheiro, exatamente ao contrário do diz a frase: “tem gente que é tão pobre, que só tem dinheiro”. Esses ricos bons têm outras peculiaridades, outros atributos e outras qualidades pessoais que os caracterizam efetivamente como ricos. São pessoas que embora tenham dinheiro, não fazem do seu dinheiro uma forma de impor ou de mostrar superioridade sobre as outras pessoas. São “gente boa” que tratam os humanos como humanos, isto é, são gente igual a toda gente.
7 – Se monetariamente pobre não significa necessariamente ser ruim?
Muitos pobres monetariamente, talvez a maioria, são pessoas boas. Talvez por causa da dificuldade maior de suas respectivas vidas, esses pobres de dinheiro, são ricos de coração, de afeto, de altruísmo e procuram fazer o bem, independentemente de serem economicamente pobres. Entretanto, é bom que se diga que também existem pobres de dinheiro que são efetivamente pobres de caráter. Nesse caso a frase em questão não se aplica, porque nem dinheiro esse tipo de pessoa tem. Esse é o pior pobre que pode existir, porque só se interessa por destruir aquilo que as demais pessoas têm. São pessoas más, negativas e invejosas.
8 – É melhor ser pobre e gente do que ter dinheiro?
Na verdade, seria bom que todos tivessem dinheiro, mas isso é impossível na conjuntura da sociedade em que vivemos. Assim, nós humanos, antes da conta bancária, deveríamos ver o quanto uma pessoa é como ser humano, como agente social e comunitário. Como essa pessoa se manifesta em relação ao seu semelhante. Se essa pessoa tratar bem os demais humanos, se for “boa gente”, independentemente de ser economicamente pobre, essa pessoa deve ser respeitada por suas ações. Não é necessário dinheiro para realizar boas ações humanas.
9 – Por que existem pobres e ricos?
Essa é a questão principal que decorre da frase inicial. Somos humanos e como humanos todos nós deveríamos pensar de maneira igual, no que se refere a essa questão. Em essência, ser pobre ou ser rico é apenas uma questão econômica e monetária. Vivemos numa sociedade desigual, diversificada e realmente bastante desproporcional, onde poucos têm economicamente muito (os ricos) e muitos têm economicamente pouco (os pobres). Entretanto esta não deveria ser, de jeito nenhum, a maneira de avaliar, comparar ou medir humanos. Quando se pensa em riqueza de caráter humano a conta bancária certamente deveria ser o menos importante. Aliás, esse aspecto não deveria ter importância nenhuma. Essa condição de pobre ou rico deveria ser banida do tratamento entre humanos.
10 – Por que há categorias entre humanos?
Nós humanos somos seres diferentes de todos os demais organismos vivos. Criamos o dinheiro para representar o valor das coisas e deixamos de lutar pelas coisas e passamos a lutar pelo dinheiro, que a princípio não tem valor nenhum e a partir disso criamos categorias de humanos. Os demais organismos vivos não conhecem o dinheiro, mas sabem bem o que lhes é útil e necessário e assim trabalham para obter o que precisam e sobrevivem. Não nos contentamos em apenas sobreviver, criamos valores supranaturais, a partir do poder econômico (dinheiro) e assim produzimos diferentes tipos de homens.

Senhores, vejam bem o tamanho absurdo a que “seres humanos”, chegamos: nos valorizamos e nos comparamos a partir de algo que não tem nenhum valor e em contra partida deixamos de lado tudo aquilo que efetivamente deveria valer, principalmente a nossa única casa, o nosso Planeta, de onde tiramos todas as coisas que realmente precisamos.
Caramba! Quando será que vamos aprender a valorizar as coisas certas e quem sabe, dessa maneira, vamos conseguir mudar a frase inicial? Eu gostaria que num futuro bem próximo a frase pudesse ser grafada da seguinte maneira: “tem gente é que tão rica, que nem precisa de dinheiro”.
Luiz Eduardo Corrêa Lima

O F I M D A M A TA A T L Â N T I C A

Floresta de Mata Atlântica, o que fizeram com você?
Na Floresta, flor não resta.
A Mata, o mato matou.
A Atlântica perdeu-se na lenda
E na imensidão que margeia o seu Oceano.
O que fizeram com tua bela vegetação?
Quanto mais o tempo passa,
Muito mais ela vegeta e muito menos tem ação.
Sua flora não mais aflora,
Seu fim está claro e parece que não demora,
Restam apenas 7% do que foi outrora.
Suas plantas nativas que ainda não se extinguiram,
Estão sumindo rapidamente por causa da degradação,
Ou simplesmente saindo por aí afora.
E nessa lamentável situação
As exóticas são muito mais comuns agora.

Floresta de Mata Atlântica, toda natureza chora.
Nas escarpas das Serras afloram rochas roxas e cinzas.
Rochas roxas de agonia e tristeza,
Pois não vêm mais suas belezas.
Rochas cinzas das intempéries do tempo
E das fuligens das queimadas de seus troncos,
Que são trazidas pelo vento.
Floresta de Mata Atlântica, o que fizeram com você?
A vegetação vai e a montanha cai.
O capim cresce e a floresta empobrece.
Quanto mais pedra aparece,
Mais seu patrimônio natural padece,
E toda a natureza se entristece.
Floresta de Mata Atlântica, o que fizeram com você?
Seus rios de águas claras e transparentes,
Hoje já secaram ou estão doentes.
As águas claras ficaram vermelhas,
Pois o seu solo barrento, que lhe servia de assento,
Agora está entregue ao tempo e ao vento
E cai sobre os rios tornando-os lamacentos.

Floresta de Mata Atlântica, o que fizeram com você?
Sua fauna, outrora rica e diversificada,
Hoje está pobre e muito dizimada.
Não sobrou praticamente nada,
Dos seus residentes mais nobres.
Os Primatas são os que mais sofrem.
O Bugio, esse quase sumiu.
O Sagui e o Muriqui, hoje são raros
E já não são vistos mais aqui.
O Sauá há muito não aparece por cá.
O Prego foi exterminado pelo caçador cego.
E hoje, talvez, faça parte das gorduras,
Desses homens sem coração e sem ternura,
Que viveram às custas de suas capturas.
Os mico-leões, seus mais velhos anciões,
São meras recordações do que aqui já viveu.
Até o seu homem nativo,
O índio primitivo que aqui morava,
Há muito tempo desapareceu.
Os outros Mamíferos não tiveram sorte melhor.
A capivara hoje é rara.
Veado - campeiro está de mal a pior.
Cachorro - do - mato já sucumbiu.
Tamanduá e a preguiça, nunca mais se viu.
Onça - preta ou pintada há muito não é encontrada.
Onça - parda (Suçuarana), maracajá e Jaguatirica,
Ainda podem ser vistas, mas em áreas muito restritas.
Anta, Lobo - guará e Tatu,
Assim como Paca e Cateto ou Queixada,
Não existe mais nadica de nada.
Ariranha e Lontra são tão raras no local,
Que parecem estar no declínio final.
A exterminação e a extinção dos Mamíferos,
Como se vê, é quase total.
As Aves, hoje também não cantam mais.
Talvez, há alguns anos atrás,
Ainda fosse possível ouvir, o canto do Bem - te - vi.
Mas, certamente, ele já não canta mais aqui.
Araponga já não grita e Cotovia não assobia.
Gaviões, Maritacas, Sabiás...
E as demais Aves perecem a cada dia.
Então, já não há alegrias para esses animais.
Os outros bichos que restam,
Como tudo mais na floresta, estão desaparecendo.
Floresta de Mata Atlântica é triste ter que dizer,
Mas na falta de você, seus bichos que não têm onde viver,
Assim também estão morrendo.

Floresta de Mata Atlântica, o que fizeram com você?
Você que atravessava o país de Norte a Sul.
Que margeava esse imenso Atlântico Azul
Que vivenciou o Descobrimento e as Invasões.
Que proporcionou conhecidas tramas e paixões.
Você que foi o palco das mais belas estórias,
Infelizmente, querida e bela floresta,
Seu fim está próximo e só restam suas escórias.
Floresta de Mata Atlântica,
Lamentavelmente, como homem que sou,
Pertenço à espécie que lhe destrói.
E peço desculpas porque lhe fazemos sofrer.
Porém, se isso lhe servir de consolo,
Lembro a você e aos meus pares tolos,
Que por causa de sua morte,
Muitos de nós humanos, senão todos,
Também poderemos morrer.

LUIZ EDUARDO CORRÊA LIMA

Enriquecimento Humano X Empobrecimento Ambiental na Região do Vale do Paraíba do Sul

A História até tem demonstrado que toda vez que o homem pensou e agiu apenas economicamente, os resultados foram terríveis para o ambiente e conseqüentemente para a qualidade e vida dos próprios humanos. Aqui no Vale do Paraíba do Sul não tem sido diferente e nós já deveríamos ter aprendido a pensar de outra forma e agir de acordo com essa nova forma, mas até hoje não fizemos o dever de casa e continuamos pensando apenas economicamente como o resto do país e de grande parte do planeta. Esse ensaio tem a pretensão de analisar e comparar os grandes projetos e programas econômicos desenvolvidos na região com seus respectivos resultados sociais e ambientais.
A região começou a sofrer desde cedo, ainda no século XVIII, com a exploração da cana-de-açúcar, porém naquela época as culturas eram praticamente de subsistências e, embora já fossem danosas, ainda não causavam grandes impactos ambientais, apenas trocavam parte da vegetação natural pelo cultivo da cana-de-açúcar. As populações daquela época eram ainda muito pequenas, os interesses econômicos locais ainda muito insipientes e assim não havia grande significado nos impactos ambientais produzidos.
Com o advento da Monocultura Cafeeira, a partir de 1820, foi que coisa começou a ficar bastante desagradável ao Meio Ambiente na nossa região, pois foi nessa época que a vegetação nativa começou a sofrer grandes modificações para dar lugar a imensas plantações do “ouro negro”, a famosa Coffea arabica. A vegetação natural do Vale do Paraíba do Sul, propriamente dito, e parte das encostas das Serra do Mar e da Serra Mantiqueira praticamente foram exterminadas, restando apenas poucos e parcos capões em algumas áreas de difícil acesso ou por interesses particulares de alguns proprietários mais cautelosos e coerentes ou menos avarentos. No restante das áreas, onde foi possível o café foi plantado.
Foram cerca de 100 anos de Ciclo do Café, que endinheirou muitos fazendeiros, que cresceu (inchou) as cidades e que levou o Vale do Paraíba a ser a região maior produtora e exportadora de café do país. Muita gente ficou rica, mas o crescimento (inchaço) das cidades naquela época, trouxe problemas ambientais sérios e a quantidade de pobres na região já era muito maior do que a de ricos. Primeiro porque no início a mão de obra era escrava e não fazia parte da balança comercial e muito menos da circulação do dinheiro e segundo porque o grande produto econômico ficava em poder de pouquíssimas pessoas, as quais eram efetivamente muito ricas, mas viviam cercadas de muita gente pobre à sua volta.
O dinheiro e a riqueza produzidos pelo café não trouxeram riqueza para as populações locais e muito menos para a região que se viu totalmente destruída, do ponto de vista ambiental, por conta da exploração exacerbada do solo pela monocultura cafeeira. O solo estagnou e não agüentou a pressão exercida. Assim, ao longo do tempo, o café entrou em declínio, os ricos foram minguando e a maioria das populações, os pobres, foram sucumbindo ou abandonando a região por falta de emprego e de melhores condições de vida.
Algum grande “gênio” então descobriu que o Gado Leiteiro seria a salvação da região e alguns dos ricos remanescentes da época do café introduziram a gado leiteiro no Vale do Paraíba para solucionar os problemas econômicos locais. No início a coisa até que foi bem, porém (e sempre há um, porém) aquele solo cansado pela monocultura cafeeira e que agora era pisoteado pelo gado, tornando-se cada vez mais compacto, começava a estagnar e nem o capim estava brotando mais. Desta maneira a criação do Gado Leiteiro também começou a andar para trás e mais uma vez, as populações pobres ficaram mais pobres e o solo entrou em colapso.
Algum outro “gênio” ainda tentou amenizar a situação, através da introdução na região de um capim diferente (exótico) que brota, cresce, reproduz rapidamente e se constitui numa excelente forrageira, a Braquiária (Brachiaria decumbens). Esse capim, que além de todas as benesses citadas, também tem muita sede e se constitui numa espécie extremamente competitiva, rapidamente acabou por secar e estagnar o solo de uma vez por todas, além de exterminar grande parte das Gramíneas nativas em várias localidades da região. Assim, mais uma vez o ambiente foi degradado e as populações pobres ficaram ainda mais miseráveis.
Outro gênio (esse, depois e tanta desgraça, finalmente parece ter acertado) surgiu e descobriu que uma região como a nossa, localizada entre as duas maiores capitais do país e cortada por uma “grande avenida”, não poderia mesmo ser outra coisa que não fosse um grande centro industrial. Até porque, verdade seja dita, a região não podia mais nada, do ponto de vista agrícola, porque o solo já estava totalmente comprometido. Entretanto, a opção feita pela indústria automobilística, mais uma vez trouxe riqueza somente para alguns, porque acabou por trazer também as mazelas da poluição industrial, o inchaço e o enfavelamento das cidades, a ampliação das populações pobres e assim também o aumento quase incontrolável da poluição orgânica, haja vista que a grande maioria das cidades não tinha e ainda não têm tratamento de esgotos.
Como agravante, ainda foi feita a opção pela Rodovia que passou a utilizar o automóvel como meio de transporte, abandonando a Ferrovia que utilizava o trem, um transporte barato, não poluidor e que quase não oferecia riscos. Em contra partida, o veículo automotivo, além de muito caro, é mais poluidor e mais perigoso sob todos os aspectos. A estrada, para alguns, representava o progresso, teve até um Presidente desse país (Washington Luís Pereira de Sousa) que ficou famoso por conta da seguinte frase: “governar é construir estradas”. Talvez, por causa disso, a nossa estrada principal, a Dutra, leva o nome do Presidente que a idealizou, Eurico Gaspar Dutra. Essa falsa noção de progresso sempre foi a nossa maior desgraça. Essa nossa mania de país pobre que quer imitar os países ricos só nos tem levado a sofrer prejuízos sociais e principalmente ambientais imediatos, além de prejuízos econômicos secundariamente. Porém, como sempre colocamos o interesse econômico na frente, só somos capazes de observar os malefícios depois de algum tempo, quando os problemas econômicos começam a aparecer. Ainda não aprendemos que temos que abrasileirar e não estrangeirar o Brasil.
Depois disso, a indústria se diversificou para pior, porque aí vieram as indústrias químicas, as petroquímicas e as reprocessadoras de metais pesados, todas altamente poluidoras. A região que já não tinha qualidade ambiental ficou definitivamente à deriva. Cabe ressaltar que as cidades cresceram (incharam) e alguns administradores locais entenderam isso como desenvolvimento. Até hoje ainda se houve muito a frase: “precisamos trazer indústrias para o nosso município” da boca de vários Prefeitos, sob a alegação de as indústrias são as únicas coisas capazes de gerar o emprego.
O problema em si não está em trazer indústrias, mas sim em não se discutir que tipo de indústrias a região e as populações podem suportar e que tipos de empregos serão bem vindos. Não nos cabe aqui questionar se queremos morrer de fome por não ter empregos ou envenenados por trabalhar numa indústria contaminante, pois a princípio não queremos morrer de maneira nenhuma. Temos que cuidar da nossa fome e de nossas outras necessidades, mas não precisamos decretar a nossa morte prematura para isso. Em suma, não é qualquer emprego que resolve qualquer problema social e essa questão é muito mais profunda e complexa para que ser discutida nesse ensaio. Portanto, vamos deixá-la de lado.
Nessas alturas o Vale do Paraíba encontra-se totalmente degradado, com as cidades inchadas (cerca de 85% da população da região é urbana), com inúmeras indústrias poluentes, com a descaracterização total dos ambientes naturais. Ainda por cima, com a contaminação quase total das águas da Bacia Hidrográfica por conta do uso indiscriminado de agrotóxicos e inseticidas nas poucas lavouras que tentaram subsistir, particularmente o cultivo de arroz. Além disso, também por causa do grande problema da região que é a poluição orgânica produzida pelo esgoto doméstico não tratado na grande maioria das cidades da região, em especial as cidades com as populações maiores, aquelas que cresceram (incharam) mais rápido.
Se não bastasse tudo isso, recentemente outros “gênios” inventaram dois novos mecanismos para solucionar os problemas e a região voltar a “crescer”. O primeiro deles foi a Mineração de Classe II, nome pomposo para a Exploração de Areia, que, além de ser uma prática socialmente injusta, pois só traz lucro para os donos do negócio é hoje também o maior fator de degradação ambiental da região. As mazelas produzidas pela exploração de areia na região já degradaram áreas significativas da várzea do Rio Paraíba do Sul e têm causado sérios problemas para alguns municípios.
O outro “grande negócio” recém descoberto é a monocultura do Eucalipto. No início desse negócio na região, década de 1980, atitude de algumas empresas chagava mesmo a ser criminosa, pois desmatavam alguns dos parcos capões de matas naturais remanescentes das áreas de encosta das serras, apenas para plantar o eucalipto. Mas, ao que parece essa prática não existe mais. Por outro lado, no primeiro momento como a região está com seu solo estagnado, em certo sentido, o plantio de eucalipto é até interessante, porque muitas áreas degradadas estão sendo recuperadas pelas empresas que trabalham nesse negócio.
Entretanto, o que se está vendo em toda região é a volta de uma exploração intensiva de uma monocultura exótica, muito mais exigente e danosa que o café, sobre um solo já comprometido. A expectativa que se tem desse grande eucaliptal de hoje é a desertificação da área amanhã. O eucalipto já demonstrou o seu potencial como planta de grande utilidade, porém nossa região é ambientalmente muito frágil para suportar essa coisa monstruosa que estamos vendo.
Mais uma vez, agora já no século XXI, estamos fazendo coisas erradas. Estamos colocando o interesse econômico na frente dos interesses ambiental e social. Mais uma vez, estamos nos iludindo com a possibilidade de produzir alguns novos ricos e a certeza de ganhar muitos pobres. Quando será que vamos colocar na cabeça de nossas populações e principalmente de nossos administradores públicos que a vida é o bem maior que temos e que devemos pensar primeiro na vida para depois pensar nos outros aspectos, pois todos esses aspectos são certamente secundários.
Precisamos pensar na qualidade de vida antes de qualquer outra questão. Estar vivo e continuar vivendo, este sim é o grande negócio. Precisamos entender que inchaço não é crescimento, pois o inchaço resulta de infecção e essa, por sua vez, é resultante de uma contaminação que agride a vida. A História está aí para nos mostrar o quanto erramos e nós já deveríamos ter aprendido com os erros que cometemos no passado. Não adianta nada querermos o enriquecimento de nossas populações a partir do empobrecimento de nossa qualidade ambiental, pois uma coisa está associada à outra.
A equação é simples: “se nós não cuidarmos do nosso Vale do Paraíba ambientalmente, jamais conseguiremos uma boa condição social e o tão sonhado enriquecimento econômico de nossa população”. Portanto, mãos à obra. Recuperemos o nosso Vale ambientalmente e desenvolvamos projetos que tenham como objetivo primário a manutenção da qualidade de vida de nossa gente, pois o enriquecimento econômico de nossa população será uma conseqüência natural desses projetos.

Luiz Eduardo Corrêa Lima