quarta-feira, 30 de julho de 2008

Realismo X Romantismo e a Terceira Via

Para muitos, ser romântico é negar a realidade da vida, da mesma forma que ser real é não ter absolutamente nenhum romantismo. Entretanto, eu quero defender aqui uma Terceira Via que passe pela realidade da vida, mas que defenda o amor, o afeto, o companheirismo, a amizade e todos os demais valores românticos. Até porque, entendo que não seja possível pensar de outra maneira e por mais dura, real e até cruel, que possa ser a vida, ela sempre dependerá de momentos amenos e de situações emocionais boas ou ruins.
Quando penso nas intrincadas relações entre os homens e da necessidade dessas relações serem sérias e verdadeiras, logo me vem à mente a realidade nua e crua, porém quando penso que a realidade é muito dura, procuro aparar as arestas e amenizar um pouco os danos produzidos pelas complicações nas relações. Os sentimentos que se sobrepõem à realidade nessa hora, não só mascaram sua dureza, como amenizam sua força e acalantam seus efeitos.
O romantismo, embora para muitos, fora de moda, continua existindo e constitui-se num elemento fundamental nas relações humanas. Entretanto as relações não podem ser apenas e tão somente românticas, porque assim “não dão liga”, fica faltando algo. Há necessidade de uma base concreta e real que justifique a relação. Ninguém ama por nada, assim como ninguém quer por querer ou faz por fazer. Sempre existe um algo mais, tanto real, quanto romântico, que justificam as ações. Assim, não dá para separar o realismo do romantismo. Aliás, ao contrário, devemos unir cada vez mais essas duas extremidades e procurarmos um ponto de equilíbrio entre as duas, porque aí certamente estará o melhor lugar.
Esse ponto de equilíbrio é o que eu estou chamando de Terceira Via, que embora natural, nunca foi efetivamente definida e muito menos estabelecida conceitualmente, mas precisa ser, para que se tenha a devida dimensão de sua importância nas relações humanas. Ainda que não entendamos bem o porquê, temos certeza absoluta de que uma boa razão não se faz sem paixão e nem uma boa paixão pode ser verdadeiramente boa se acontecer fora da razão. Ora, isso é a própria Terceira Via, que se quisermos conceituar, poderíamos dizer que “é aquela maneira de pensar e de agir, na qual se estabelece a realidade da ação imperante mediante o sentimento efetivo daquilo que precisa ser realizado para o cumprimento dessa ação”.
Pois, então, precisamos nos preparar sempre e agora com um pouco mais de cuidado, para esse ponto de encontro entre as componentes natural (real) e emocional (romântica). Temos que estar cientes de que isso existe e de que isso é importante para nós e para as nossas relações com as demais pessoas. Nossa vida será melhor e a vida das pessoas que convivem conosco também será, se nos preocuparmos com o ponto de equilíbrio e se nos envolvermos conscientemente com a Terceira Via.
Até aqui, muitos de nós têm sido seres perigosamente reais e penosamente românticos, ou vice–versa, mas que agora precisamos cultivar em nosso pensamento a necessidade de agirmos de maneira sóbria sobre essa situação que, embora filosoficamente seja contrastante, mas que também é fisiologicamente concludente e necessária ao nosso bem viver. Entender a necessidade da Terceira Via pode nos garantir melhores momentos, melhores dias e enfim, uma vida melhor.
Vamos trabalhar para colocar a Terceira Via na pauta das ações do cotidiano, a fim de produzirmos melhores homens e mulheres para o futuro. O equilíbrio entre o realismo e o romantismo deve ser a meta para o novo comportamento social da humanidade. O homem do futuro deverá ser um sujeito preocupado com a realidade, porém suficientemente envolvido nas questões emocionais para não cometer atitudes contra o planeta, os demais organismos vivos e principalmente contra a própria sociedade humana.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

Pequeno comentário acerca dos valores humanos.

Recentemente li uma frase que achei genial: “tem gente que é tão pobre, que só tem dinheiro”. Achei essa frase tão interessante, verdadeira e profunda que resolvi fazer alguns comentários explicativos sobre algumas questões que podem ser decorrentes da mesma. Que fique claro, desde já, que eu não pretendo aqui esgotar nada sobre o assunto, quero apenas discutir sobre algo que me parece oportuno e importante para a nossa sociedade capitalista, para o nosso hábito consumista e pela inversão total de valores que temos desenvolvido em consequência disso.

1 – Atualmente só se pensa economicamente?
Só tem valor aquilo que pode ser comprado ou vendido. Não se avaliam mais as coisas pelas coisas, ou as situações pelas situações, nem mesmo as ações e os sentimentos são avaliados, porque o dinheiro não pode comprá-los. Educação, Cultura e Meio Ambiente, por exemplo, são coisas que estão acima do valor econômico, portanto, não têm valor para a nossa sociedade atual. Infelizmente a noção de valores da maioria da sociedade está restrita aos valores econômicos. Quanto é que eu vou ganhar para fazer isso ou aquilo? Qualquer coisa feita tem que ter um valor econômico que a dimensione. Voluntarismo e altruísmo não valem absolutamente nada e são coisas que muitas pessoas não acreditam que existe. Lamentavelmente, eu mesmo já tive algumas oportunidades de comprovar que isso é um fato.
2 – Será bom lembrar as pessoas que dinheiro não serve para nada?
O dinheiro por si só não tem valor nenhum, quem tem valor são as coisas. Precisa-se do dinheiro porque é ele quem permite adquirir as coisas, mas são as coisas que têm importância e consequentemente o valor. O dinheiro é apenas um simbolismo do valor que serve para efetuar a compra e a venda das coisas. Na época do escambo não havia dinheiro, mas as coisas existiam e as pessoas sobreviviam sem dinheiro porque tinham aquilo que realmente tinha valor, ou seja, as coisas, as quais eras trocadas. O consumismo exacerbado fez criar essa noção errada de acharmos que o dinheiro é fundamental e infelizmente tem muita gente que faz qualquer coisa por dinheiro, o que não faz nenhum sentido, haja vista que o dinheiro em si não serve para nada. De que serve um milhão de dólares nas mãos de um indivíduo que está na lua e não tem condições de voltar à Terra?
3 – A riqueza independe mesmo de dinheiro?
Por mais pobre economicamente que uma pessoa possa ser, ela pode ser rica e o contrário também é verdadeiro, ou seja, por mais rica economicamente que uma pessoa possa ser, ela também pode ser pobre. Pobreza e riqueza são valores que independem de dinheiro. Somos ricos quando nos sentimos bem e somos pobres quando nos sentimos mal, independentemente de nossa conta bancária. Fazer o bem, ajudar o próximo, ser correto e ético, interferir na melhoria da qualidade de vida da comunidade são riquezas, pois são atitudes que valorizam muito as pessoas, embora necessariamente isso não lhes produza nenhuma riqueza econômica (dinheiro). Entretanto, hoje em dia, a maioria das pessoas não são levadas a pensar assim.
4 – A pobreza está na falta de caráter e de amor ao próximo?
Pessoas pobres, antes de ser aquelas que não têm dinheiro, são aquelas que só olham para o próprio umbigo (egoístas) e que fazem, tudo apenas pensando em se dar bem (Lei de Gérson). Essas pessoas muitas vezes conseguem grandes quantidades de dinheiro, porém são pobres porque não têm caráter e não sabem dividir o que têm para também ver a felicidade das outras. Essas pessoas olham outras pessoas como coisas melhores (mais ricas monetariamente) ou piores (mais pobres monetariamente) e não como seres humanos, seus semelhantes. A pobreza maior é julgar um humano apenas por suas posses econômicas e deixar de ver sua essência como pessoa humana.
5 – Quem só tem dinheiro aparentemente nem é gente?
Diz o ditado que: “gente fina é outra coisa”. Pois é, gente fina, aqui entendido como gente que tem riqueza monetária, para muitos, é realmente outra coisa. Muitos dos ricos de dinheiro acham que as outras pessoas são gente de segunda ou terceira categorias, portanto, não merecem serem tratadas da mesma maneira que as pessoas abastadas. Esses ricos se acham superiores aos demais humanos, isto é, eles pensam que estão acima desses humanos. Ora, se os humanos não ricos são gente e se os ricos estão acima dos humanos não ricos, então eles são outra coisa mesmo. O que eles pensam que são, eu não sei, mas seria melhor que eles caíssem na real e se entendessem também como seres humanos iguais aos demais.
6 – Ser monetariamente rico não é necessariamente ruim?
Em todas as sociedades e atividades humanas há gente boa e gente ruim, da mesma maneira, há pessoas monetariamente ricas boas e outras ricas ruins. Os ricos bons são aqueles que têm mais do que o dinheiro, exatamente ao contrário do diz a frase: “tem gente que é tão pobre, que só tem dinheiro”. Esses ricos bons têm outras peculiaridades, outros atributos e outras qualidades pessoais que os caracterizam efetivamente como ricos. São pessoas que embora tenham dinheiro, não fazem do seu dinheiro uma forma de impor ou de mostrar superioridade sobre as outras pessoas. São “gente boa” que tratam os humanos como humanos, isto é, são gente igual a toda gente.
7 – Se monetariamente pobre não significa necessariamente ser ruim?
Muitos pobres monetariamente, talvez a maioria, são pessoas boas. Talvez por causa da dificuldade maior de suas respectivas vidas, esses pobres de dinheiro, são ricos de coração, de afeto, de altruísmo e procuram fazer o bem, independentemente de serem economicamente pobres. Entretanto, é bom que se diga que também existem pobres de dinheiro que são efetivamente pobres de caráter. Nesse caso a frase em questão não se aplica, porque nem dinheiro esse tipo de pessoa tem. Esse é o pior pobre que pode existir, porque só se interessa por destruir aquilo que as demais pessoas têm. São pessoas más, negativas e invejosas.
8 – É melhor ser pobre e gente do que ter dinheiro?
Na verdade, seria bom que todos tivessem dinheiro, mas isso é impossível na conjuntura da sociedade em que vivemos. Assim, nós humanos, antes da conta bancária, deveríamos ver o quanto uma pessoa é como ser humano, como agente social e comunitário. Como essa pessoa se manifesta em relação ao seu semelhante. Se essa pessoa tratar bem os demais humanos, se for “boa gente”, independentemente de ser economicamente pobre, essa pessoa deve ser respeitada por suas ações. Não é necessário dinheiro para realizar boas ações humanas.
9 – Por que existem pobres e ricos?
Essa é a questão principal que decorre da frase inicial. Somos humanos e como humanos todos nós deveríamos pensar de maneira igual, no que se refere a essa questão. Em essência, ser pobre ou ser rico é apenas uma questão econômica e monetária. Vivemos numa sociedade desigual, diversificada e realmente bastante desproporcional, onde poucos têm economicamente muito (os ricos) e muitos têm economicamente pouco (os pobres). Entretanto esta não deveria ser, de jeito nenhum, a maneira de avaliar, comparar ou medir humanos. Quando se pensa em riqueza de caráter humano a conta bancária certamente deveria ser o menos importante. Aliás, esse aspecto não deveria ter importância nenhuma. Essa condição de pobre ou rico deveria ser banida do tratamento entre humanos.
10 – Por que há categorias entre humanos?
Nós humanos somos seres diferentes de todos os demais organismos vivos. Criamos o dinheiro para representar o valor das coisas e deixamos de lutar pelas coisas e passamos a lutar pelo dinheiro, que a princípio não tem valor nenhum e a partir disso criamos categorias de humanos. Os demais organismos vivos não conhecem o dinheiro, mas sabem bem o que lhes é útil e necessário e assim trabalham para obter o que precisam e sobrevivem. Não nos contentamos em apenas sobreviver, criamos valores supranaturais, a partir do poder econômico (dinheiro) e assim produzimos diferentes tipos de homens.

Senhores, vejam bem o tamanho absurdo a que “seres humanos”, chegamos: nos valorizamos e nos comparamos a partir de algo que não tem nenhum valor e em contra partida deixamos de lado tudo aquilo que efetivamente deveria valer, principalmente a nossa única casa, o nosso Planeta, de onde tiramos todas as coisas que realmente precisamos.
Caramba! Quando será que vamos aprender a valorizar as coisas certas e quem sabe, dessa maneira, vamos conseguir mudar a frase inicial? Eu gostaria que num futuro bem próximo a frase pudesse ser grafada da seguinte maneira: “tem gente é que tão rica, que nem precisa de dinheiro”.
Luiz Eduardo Corrêa Lima

O F I M D A M A TA A T L Â N T I C A

Floresta de Mata Atlântica, o que fizeram com você?
Na Floresta, flor não resta.
A Mata, o mato matou.
A Atlântica perdeu-se na lenda
E na imensidão que margeia o seu Oceano.
O que fizeram com tua bela vegetação?
Quanto mais o tempo passa,
Muito mais ela vegeta e muito menos tem ação.
Sua flora não mais aflora,
Seu fim está claro e parece que não demora,
Restam apenas 7% do que foi outrora.
Suas plantas nativas que ainda não se extinguiram,
Estão sumindo rapidamente por causa da degradação,
Ou simplesmente saindo por aí afora.
E nessa lamentável situação
As exóticas são muito mais comuns agora.

Floresta de Mata Atlântica, toda natureza chora.
Nas escarpas das Serras afloram rochas roxas e cinzas.
Rochas roxas de agonia e tristeza,
Pois não vêm mais suas belezas.
Rochas cinzas das intempéries do tempo
E das fuligens das queimadas de seus troncos,
Que são trazidas pelo vento.
Floresta de Mata Atlântica, o que fizeram com você?
A vegetação vai e a montanha cai.
O capim cresce e a floresta empobrece.
Quanto mais pedra aparece,
Mais seu patrimônio natural padece,
E toda a natureza se entristece.
Floresta de Mata Atlântica, o que fizeram com você?
Seus rios de águas claras e transparentes,
Hoje já secaram ou estão doentes.
As águas claras ficaram vermelhas,
Pois o seu solo barrento, que lhe servia de assento,
Agora está entregue ao tempo e ao vento
E cai sobre os rios tornando-os lamacentos.

Floresta de Mata Atlântica, o que fizeram com você?
Sua fauna, outrora rica e diversificada,
Hoje está pobre e muito dizimada.
Não sobrou praticamente nada,
Dos seus residentes mais nobres.
Os Primatas são os que mais sofrem.
O Bugio, esse quase sumiu.
O Sagui e o Muriqui, hoje são raros
E já não são vistos mais aqui.
O Sauá há muito não aparece por cá.
O Prego foi exterminado pelo caçador cego.
E hoje, talvez, faça parte das gorduras,
Desses homens sem coração e sem ternura,
Que viveram às custas de suas capturas.
Os mico-leões, seus mais velhos anciões,
São meras recordações do que aqui já viveu.
Até o seu homem nativo,
O índio primitivo que aqui morava,
Há muito tempo desapareceu.
Os outros Mamíferos não tiveram sorte melhor.
A capivara hoje é rara.
Veado - campeiro está de mal a pior.
Cachorro - do - mato já sucumbiu.
Tamanduá e a preguiça, nunca mais se viu.
Onça - preta ou pintada há muito não é encontrada.
Onça - parda (Suçuarana), maracajá e Jaguatirica,
Ainda podem ser vistas, mas em áreas muito restritas.
Anta, Lobo - guará e Tatu,
Assim como Paca e Cateto ou Queixada,
Não existe mais nadica de nada.
Ariranha e Lontra são tão raras no local,
Que parecem estar no declínio final.
A exterminação e a extinção dos Mamíferos,
Como se vê, é quase total.
As Aves, hoje também não cantam mais.
Talvez, há alguns anos atrás,
Ainda fosse possível ouvir, o canto do Bem - te - vi.
Mas, certamente, ele já não canta mais aqui.
Araponga já não grita e Cotovia não assobia.
Gaviões, Maritacas, Sabiás...
E as demais Aves perecem a cada dia.
Então, já não há alegrias para esses animais.
Os outros bichos que restam,
Como tudo mais na floresta, estão desaparecendo.
Floresta de Mata Atlântica é triste ter que dizer,
Mas na falta de você, seus bichos que não têm onde viver,
Assim também estão morrendo.

Floresta de Mata Atlântica, o que fizeram com você?
Você que atravessava o país de Norte a Sul.
Que margeava esse imenso Atlântico Azul
Que vivenciou o Descobrimento e as Invasões.
Que proporcionou conhecidas tramas e paixões.
Você que foi o palco das mais belas estórias,
Infelizmente, querida e bela floresta,
Seu fim está próximo e só restam suas escórias.
Floresta de Mata Atlântica,
Lamentavelmente, como homem que sou,
Pertenço à espécie que lhe destrói.
E peço desculpas porque lhe fazemos sofrer.
Porém, se isso lhe servir de consolo,
Lembro a você e aos meus pares tolos,
Que por causa de sua morte,
Muitos de nós humanos, senão todos,
Também poderemos morrer.

LUIZ EDUARDO CORRÊA LIMA

Enriquecimento Humano X Empobrecimento Ambiental na Região do Vale do Paraíba do Sul

A História até tem demonstrado que toda vez que o homem pensou e agiu apenas economicamente, os resultados foram terríveis para o ambiente e conseqüentemente para a qualidade e vida dos próprios humanos. Aqui no Vale do Paraíba do Sul não tem sido diferente e nós já deveríamos ter aprendido a pensar de outra forma e agir de acordo com essa nova forma, mas até hoje não fizemos o dever de casa e continuamos pensando apenas economicamente como o resto do país e de grande parte do planeta. Esse ensaio tem a pretensão de analisar e comparar os grandes projetos e programas econômicos desenvolvidos na região com seus respectivos resultados sociais e ambientais.
A região começou a sofrer desde cedo, ainda no século XVIII, com a exploração da cana-de-açúcar, porém naquela época as culturas eram praticamente de subsistências e, embora já fossem danosas, ainda não causavam grandes impactos ambientais, apenas trocavam parte da vegetação natural pelo cultivo da cana-de-açúcar. As populações daquela época eram ainda muito pequenas, os interesses econômicos locais ainda muito insipientes e assim não havia grande significado nos impactos ambientais produzidos.
Com o advento da Monocultura Cafeeira, a partir de 1820, foi que coisa começou a ficar bastante desagradável ao Meio Ambiente na nossa região, pois foi nessa época que a vegetação nativa começou a sofrer grandes modificações para dar lugar a imensas plantações do “ouro negro”, a famosa Coffea arabica. A vegetação natural do Vale do Paraíba do Sul, propriamente dito, e parte das encostas das Serra do Mar e da Serra Mantiqueira praticamente foram exterminadas, restando apenas poucos e parcos capões em algumas áreas de difícil acesso ou por interesses particulares de alguns proprietários mais cautelosos e coerentes ou menos avarentos. No restante das áreas, onde foi possível o café foi plantado.
Foram cerca de 100 anos de Ciclo do Café, que endinheirou muitos fazendeiros, que cresceu (inchou) as cidades e que levou o Vale do Paraíba a ser a região maior produtora e exportadora de café do país. Muita gente ficou rica, mas o crescimento (inchaço) das cidades naquela época, trouxe problemas ambientais sérios e a quantidade de pobres na região já era muito maior do que a de ricos. Primeiro porque no início a mão de obra era escrava e não fazia parte da balança comercial e muito menos da circulação do dinheiro e segundo porque o grande produto econômico ficava em poder de pouquíssimas pessoas, as quais eram efetivamente muito ricas, mas viviam cercadas de muita gente pobre à sua volta.
O dinheiro e a riqueza produzidos pelo café não trouxeram riqueza para as populações locais e muito menos para a região que se viu totalmente destruída, do ponto de vista ambiental, por conta da exploração exacerbada do solo pela monocultura cafeeira. O solo estagnou e não agüentou a pressão exercida. Assim, ao longo do tempo, o café entrou em declínio, os ricos foram minguando e a maioria das populações, os pobres, foram sucumbindo ou abandonando a região por falta de emprego e de melhores condições de vida.
Algum grande “gênio” então descobriu que o Gado Leiteiro seria a salvação da região e alguns dos ricos remanescentes da época do café introduziram a gado leiteiro no Vale do Paraíba para solucionar os problemas econômicos locais. No início a coisa até que foi bem, porém (e sempre há um, porém) aquele solo cansado pela monocultura cafeeira e que agora era pisoteado pelo gado, tornando-se cada vez mais compacto, começava a estagnar e nem o capim estava brotando mais. Desta maneira a criação do Gado Leiteiro também começou a andar para trás e mais uma vez, as populações pobres ficaram mais pobres e o solo entrou em colapso.
Algum outro “gênio” ainda tentou amenizar a situação, através da introdução na região de um capim diferente (exótico) que brota, cresce, reproduz rapidamente e se constitui numa excelente forrageira, a Braquiária (Brachiaria decumbens). Esse capim, que além de todas as benesses citadas, também tem muita sede e se constitui numa espécie extremamente competitiva, rapidamente acabou por secar e estagnar o solo de uma vez por todas, além de exterminar grande parte das Gramíneas nativas em várias localidades da região. Assim, mais uma vez o ambiente foi degradado e as populações pobres ficaram ainda mais miseráveis.
Outro gênio (esse, depois e tanta desgraça, finalmente parece ter acertado) surgiu e descobriu que uma região como a nossa, localizada entre as duas maiores capitais do país e cortada por uma “grande avenida”, não poderia mesmo ser outra coisa que não fosse um grande centro industrial. Até porque, verdade seja dita, a região não podia mais nada, do ponto de vista agrícola, porque o solo já estava totalmente comprometido. Entretanto, a opção feita pela indústria automobilística, mais uma vez trouxe riqueza somente para alguns, porque acabou por trazer também as mazelas da poluição industrial, o inchaço e o enfavelamento das cidades, a ampliação das populações pobres e assim também o aumento quase incontrolável da poluição orgânica, haja vista que a grande maioria das cidades não tinha e ainda não têm tratamento de esgotos.
Como agravante, ainda foi feita a opção pela Rodovia que passou a utilizar o automóvel como meio de transporte, abandonando a Ferrovia que utilizava o trem, um transporte barato, não poluidor e que quase não oferecia riscos. Em contra partida, o veículo automotivo, além de muito caro, é mais poluidor e mais perigoso sob todos os aspectos. A estrada, para alguns, representava o progresso, teve até um Presidente desse país (Washington Luís Pereira de Sousa) que ficou famoso por conta da seguinte frase: “governar é construir estradas”. Talvez, por causa disso, a nossa estrada principal, a Dutra, leva o nome do Presidente que a idealizou, Eurico Gaspar Dutra. Essa falsa noção de progresso sempre foi a nossa maior desgraça. Essa nossa mania de país pobre que quer imitar os países ricos só nos tem levado a sofrer prejuízos sociais e principalmente ambientais imediatos, além de prejuízos econômicos secundariamente. Porém, como sempre colocamos o interesse econômico na frente, só somos capazes de observar os malefícios depois de algum tempo, quando os problemas econômicos começam a aparecer. Ainda não aprendemos que temos que abrasileirar e não estrangeirar o Brasil.
Depois disso, a indústria se diversificou para pior, porque aí vieram as indústrias químicas, as petroquímicas e as reprocessadoras de metais pesados, todas altamente poluidoras. A região que já não tinha qualidade ambiental ficou definitivamente à deriva. Cabe ressaltar que as cidades cresceram (incharam) e alguns administradores locais entenderam isso como desenvolvimento. Até hoje ainda se houve muito a frase: “precisamos trazer indústrias para o nosso município” da boca de vários Prefeitos, sob a alegação de as indústrias são as únicas coisas capazes de gerar o emprego.
O problema em si não está em trazer indústrias, mas sim em não se discutir que tipo de indústrias a região e as populações podem suportar e que tipos de empregos serão bem vindos. Não nos cabe aqui questionar se queremos morrer de fome por não ter empregos ou envenenados por trabalhar numa indústria contaminante, pois a princípio não queremos morrer de maneira nenhuma. Temos que cuidar da nossa fome e de nossas outras necessidades, mas não precisamos decretar a nossa morte prematura para isso. Em suma, não é qualquer emprego que resolve qualquer problema social e essa questão é muito mais profunda e complexa para que ser discutida nesse ensaio. Portanto, vamos deixá-la de lado.
Nessas alturas o Vale do Paraíba encontra-se totalmente degradado, com as cidades inchadas (cerca de 85% da população da região é urbana), com inúmeras indústrias poluentes, com a descaracterização total dos ambientes naturais. Ainda por cima, com a contaminação quase total das águas da Bacia Hidrográfica por conta do uso indiscriminado de agrotóxicos e inseticidas nas poucas lavouras que tentaram subsistir, particularmente o cultivo de arroz. Além disso, também por causa do grande problema da região que é a poluição orgânica produzida pelo esgoto doméstico não tratado na grande maioria das cidades da região, em especial as cidades com as populações maiores, aquelas que cresceram (incharam) mais rápido.
Se não bastasse tudo isso, recentemente outros “gênios” inventaram dois novos mecanismos para solucionar os problemas e a região voltar a “crescer”. O primeiro deles foi a Mineração de Classe II, nome pomposo para a Exploração de Areia, que, além de ser uma prática socialmente injusta, pois só traz lucro para os donos do negócio é hoje também o maior fator de degradação ambiental da região. As mazelas produzidas pela exploração de areia na região já degradaram áreas significativas da várzea do Rio Paraíba do Sul e têm causado sérios problemas para alguns municípios.
O outro “grande negócio” recém descoberto é a monocultura do Eucalipto. No início desse negócio na região, década de 1980, atitude de algumas empresas chagava mesmo a ser criminosa, pois desmatavam alguns dos parcos capões de matas naturais remanescentes das áreas de encosta das serras, apenas para plantar o eucalipto. Mas, ao que parece essa prática não existe mais. Por outro lado, no primeiro momento como a região está com seu solo estagnado, em certo sentido, o plantio de eucalipto é até interessante, porque muitas áreas degradadas estão sendo recuperadas pelas empresas que trabalham nesse negócio.
Entretanto, o que se está vendo em toda região é a volta de uma exploração intensiva de uma monocultura exótica, muito mais exigente e danosa que o café, sobre um solo já comprometido. A expectativa que se tem desse grande eucaliptal de hoje é a desertificação da área amanhã. O eucalipto já demonstrou o seu potencial como planta de grande utilidade, porém nossa região é ambientalmente muito frágil para suportar essa coisa monstruosa que estamos vendo.
Mais uma vez, agora já no século XXI, estamos fazendo coisas erradas. Estamos colocando o interesse econômico na frente dos interesses ambiental e social. Mais uma vez, estamos nos iludindo com a possibilidade de produzir alguns novos ricos e a certeza de ganhar muitos pobres. Quando será que vamos colocar na cabeça de nossas populações e principalmente de nossos administradores públicos que a vida é o bem maior que temos e que devemos pensar primeiro na vida para depois pensar nos outros aspectos, pois todos esses aspectos são certamente secundários.
Precisamos pensar na qualidade de vida antes de qualquer outra questão. Estar vivo e continuar vivendo, este sim é o grande negócio. Precisamos entender que inchaço não é crescimento, pois o inchaço resulta de infecção e essa, por sua vez, é resultante de uma contaminação que agride a vida. A História está aí para nos mostrar o quanto erramos e nós já deveríamos ter aprendido com os erros que cometemos no passado. Não adianta nada querermos o enriquecimento de nossas populações a partir do empobrecimento de nossa qualidade ambiental, pois uma coisa está associada à outra.
A equação é simples: “se nós não cuidarmos do nosso Vale do Paraíba ambientalmente, jamais conseguiremos uma boa condição social e o tão sonhado enriquecimento econômico de nossa população”. Portanto, mãos à obra. Recuperemos o nosso Vale ambientalmente e desenvolvamos projetos que tenham como objetivo primário a manutenção da qualidade de vida de nossa gente, pois o enriquecimento econômico de nossa população será uma conseqüência natural desses projetos.

Luiz Eduardo Corrêa Lima

A Escola e a Família na Formação do Jovem Brasileiro

No passado, não muito longínquo, a educação básica era um atributo da família, a qual se encarregava de orientar as crianças sobre os deveres fundamentais, sobre as posturas e condutas preferenciais, sobre práticas de camaradagem e de cortesia. Enfim, a família informava e orientava os meninos e meninas sobre as normas primárias da boa educação, do respeito mútuo e da convivência coletiva no grupo social. Assim, quando as crianças iam finalmente para as escolas elas já conheciam as regras básicas da vida comunitária e possuíam uma noção bastante clara da ética social e a escola apenas reforçava e tentava aprimorar mais efetivamente essas regras por conta da convivência coletiva obrigatória do ambiente escolar.
Naquela época, as escolas tinham uma função muito maior e mais eficaz na Instrução e na Formação Cultural e Intelectual do aluno do que na Educação do indivíduo humano, como jovem cidadão, comunitariamente participativo e socialmente bem adaptado. Hoje essa questão mudou significativamente para pior, por conta de vários aspectos, os quais passarei apresentar, sem me preocupar com ordem ou o grau de importância entre eles, pois considero todos eles igualmente prejudiciais. A numeração atribuída é apenas é tão somente como contagem de itens.
O primeiro desses aspectos é a própria “evolução dos tempos”, a chamada “modernidade” ou “pós-modernidade” como querem alguns, a qual, passa de roldão pela sociedade e não se sabe bem o porquê, traz no seu bojo uma falta generalizada de consideração e de apreço entre os indivíduos que compõem as diferentes comunidades.
O segundo é o incrível desenvolvimento ocorrido na área da Comunicação, o qual produziu na mídia um poder fantástico, particularmente a televisão, que reduz cada vez mais as distâncias geográficas do mundo e que é capaz de construir e destruir conceitos, idéias e ícones muito rapidamente.
O terceiro é a vulgarização da noção central e real de Democracia, o que gerou e ampliou, em muitas comunidades, a perspectiva ilusória de se sentir no direito de realizar quaisquer ações que achassem possível em nome dessa coisa estranha chamada “Democracia”.
O quarto é a inversão total de valores, também criada, em certo sentido, a partir dessa noção errada da Democracia, que fez com que ser correto passasse a ser vexatório e vergonhoso, enquanto ser marginal passou a ser um bom negócio.
O quinto é a ênfase nas questões econômicas em detrimento, algumas vezes total, de outras questões mais importantes e até de relevância muito maior à vida humana e ao viver social da Humanidade no Planeta Terra.
O sexto é o avanço científico e tecnológico generalizado e da Informática particularmente, que permitiu uma infinidade de coisas novas, que levaram ao rompimento com algumas formas de tradicionalismo e consequentemente diferenciaram e desenvolveram novos padrões de comportamentos sociais.
O sétimo é o consumismo exacerbado e a falta de controle no uso dos recursos e da noção de direito e dever que deve estar estabelecida num encontro social qualquer, onde o direito daquele que tem um bem qualquer deve entender aquele que não possui esse mesmo bem e vice-versa.
O oitavo consiste numa série de maus exemplos e de modelos que têm servido de referencial para os jovens, os quais não se enquadram de maneira nenhuma com os padrões sociais preferenciais primários, pois são movidos por outras idéias e forças, as quais transcendem os valores morais e éticos anteriormente estabelecidos.
O nono é a noção errada do conceito de liberdade que foi confundido há muito tempo com libertinagem e posteriormente foi “promovido” para uma anarquia ampla geral e irrestrita e que permite ou, o que é pior, finge permitir qualquer coisa em qualquer lugar, em nome da liberdade de expressão.
O décimo consiste no surgimento de uma nova ética baseada na agregação e na mistura dos demais aspectos anteriormente citados, o que criou uma nova noção de valores, bastante diferentes daqueles do passado, onde o desrespeito e os interesses individuais suplantam os bons costumes e as necessidades comunitárias. A idéia central é a seguinte: “o eu destroçando o nós, enquanto o todos é derrubado pelo alguns”.
Com isso, a escola que antes tinha na família uma precursora e aliada, agora ficou a mercê desses aspectos contraproducentes no que se refere à Educação dos jovens, porque a família está diretamente tão envolvida nesses aspectos, que não consegue mais cumprir sua parte no processo educacional. Em suma, a escola agora, além de ter que fazer a sua parte, também tem que fazer a parte da família. Ora, isso é quase impossível, haja vista que cada família tem os seus problemas, as suas particularidades e a escola, embora possa sugerir, não tem como desenvolver certos procedimentos que são intrínsecos à família. Esse fato, não só ampliou o compromisso social da escola, como prejudicou a sua função precípua de instruir, quando lhe atribuiu também algumas das funções familiares. De fato, a escola está num mato sem cachorro, pois tem que fazer aquilo que não é sua função e assim acaba, muitas vezes, não fazendo nada.
A escola hoje é quase exclusivamente um ponto de encontro social, aonde alunos e lamentavelmente muitos professores vão para bater um papinho, trocar uma idéia e outras coisas do gênero, mas não para aprender, ensinar ou discutir sobre cultura e formação do cidadão. Hoje, o aluno vai à escola da mesma maneira que vai ao estádio de futebol, ao cinema, ao teatro ou ao “shopping center”, como mais um local onde as pessoas se encontram para o lazer. Esse fato até seria bom, desde que ficasse claro que o objetivo desse lugar é o aprendizado do aluno e que isso deveria ser um prazer para ele, assim como o prazer de ir ao cinema é ver o filme.
Mas, infelizmente o aluno não tem querido faze do aprendizado um prazer e a escola está mais para passatempo do que para diversão programada e nem mesmo como mecanismo de lazer ou simples distração ela tem sido considerada pelos alunos. Quando muito, a escola é o local onde são programadas as demais atividades sociais que serão desenvolvidas pelos alunos ao longo do tempo.
Aliás, ao contrário da noção de lazer, para muitos alunos, professores e pais, a escola ainda é um lugar terrível, de dominação, de imposição e por isso mesmo não é um bom lugar nem para as comunidades se encontrarem. Lamentavelmente, eu já ouvi de vários alunos a seguinte frase: “professor eu venho à escola porque meu pai manda, senão eu não viria, preferiria ficar em casa vendo televisão ou jogando no computador. Algumas aulas até são legais, mas isso aqui é um tédio professor, eu tenho que ficar aqui ouvindo um monte de coisas que não me interessam”. E também já ouvi alguns colegas professores reclamando, mais ou menos assim: “que droga que eu tenho que dar aulas, bem que eu podia ter arrumado alguma coisa melhor para fazer na minha vida”. Pior mesmo é quando se ouve dos pais o seguinte: “professor eu não aguento mais o meu filho em casa, por isso dou graças a Deus pelas horas que ele passa dentro da escola, pena que é tão pouco tempo”.
Meu Deus, como as coisas mudaram! Na minha época, eu ia à escola para aprender e obviamente travava também contatos sociais com outros alunos, com os professores e funcionários da escola e me envolvia comunitariamente. Mas, pelo que se vê hoje, o aluno vai à escola porque os pais mandam e aproveitam para manter contatos e atividades quase estritamente sociais com um grupo seleto, a partir das quais eles se programam no que diz respeito às atividades de lazer; os professores vão a escola porque não arrumaram coisa melhor para fazer e as mães mandam os filhos para a escola a fim de poder ficar livres deles por algumas horas. Ora, isso é um grande e trágico absurdo.
Mas, enfim, de quem é a culpa? Do aluno? Do professor? Da escola? Da família? Da mídia? Do governo? Da sociedade? De todo mundo? De ninguém?
Pois é, a culpa é de todo mundo e de ninguém. A culpa é da família e da escola, a culpa é do professor e do aluno, a culpa é da mídia e de toda a sociedade. Enquanto a mídia não mudar o enfoque sobre a Educação, enquanto não tivermos bons exemplos; enquanto as famílias não quiserem se responsabilizar pela Educação primária de seus filhos; enquanto o governo tratar o processo Educacional como mais uma linha de montagem industrial ou mais uma questão monetária; enquanto os alunos forem à escola buscando somente discutir sobre o lazer pessoal, enquanto os professores entrarem diretamente na idéia dos alunos e não o contrário e principalmente, enquanto a Sociedade não gritar contra o despautério ético e moral que se estabeleceu na Educação Brasileira por conta daqueles aspectos anteriormente citados, não haverá solução e todo mundo é culpado, mas como a responsabilidade se dilui dentro a sociedade ninguém se sente culpado pela questão que continua seu destino errante e degradante.
Esse quadro, além de trágico e perverso, é muito triste para o futuro de nossa nação e precisa ser mudado para o bem de todos nós. A Escola e a Família têm que se unir e ajudar mutuamente porque, na prática, essas são as duas únicas instituições sociais que deveriam estar efetivamente mais interessadas em resolver a questão educacional desse país. Entretanto a tarefa é árdua e muito difícil de ser implementada, mas é necessário que ela seja desenvolvida o mais rápido possível.
Em matéria de Educação, o Brasil já chegou ao fundo do poço. No que diz respeito à Educação, o Haiti é aqui! Já temos um dos piores níveis de educação do mundo. O que nos falta mais? Estamos esperando mais o quê?

Luiz Eduardo Corrêa Lima