domingo, 10 de agosto de 2008

Deus e a Ciência em tempos de Aquecimento Global

Deus e a Ciência em tempos de Aquecimento Global

Luiz Eduardo Corrêa Lima

Parece que nem o mais idiota dos homens duvida de que o Aquecimento Global é um fato consumado e a julgar pelo nível da situação, as coisas só tendem a piorar. Não há nem ameaça de que serão tomadas algumas providências, até porque a maioria das pessoas não sabe e os administradores não querem saber que providências deverão ser tomadas. Na prática está todo mundo esperando um milagre de Deus ou uma ação genial da Ciência.
Os que esperam o milagre divino estão rezando muito e os que esperam a mágica científica estão torcendo bastante, porém ninguém está efetivamente fazendo absolutamente nada. Todo mundo fala sobre o assunto, mas ninguém move uma palha para tentar resolvê-lo. Assim, salvo engano maior, devo dizer que o fim está próximo. Entretanto, de qualquer forma vou discutir um pouco mais sobre o assunto.
Historicamente, temos a mania de achar que a Ciência e a Tecnologia vão resolver tudo e que algum cientista vai inventar um “aparelhinho mágico” que irá desaquecer o planeta, porque sempre foi assim. Na hora exata sempre acontece alguma coisa que acerta tudo. Isto é, até aqui, Deus ajudou e/ou a Ciência sempre deu um jeito em tudo. Porém, dessa feita são os próprios cientistas que estão dizendo que não sabem o que fazer e que a coisa parece não ter solução, haja vista que já ultrapassamos o limite do possível.
Aqueles que só apelam para Deus na hora do perigo e que, por isso mesmo, estão esperando um milagre divino, já não têm mais dúvidas de que esse é apenas mais um castigo de Deus para assustar ao homem pelas mazelas da humanidade. Deste modo, eles estão cientes de que não há com o que se preocupar, porque Deus não deixará nenhum mal cair sobre o homem e sobre o planeta Terra. Enquanto isso, o Aquecimento Global continua em ritmo veloz e suas conseqüências são cada vez mais evidentes e mais desastrosas.
De qualquer forma, acaba de sair o terceiro relatório do IPCC, onde os cientistas afirmam que, apesar de não haver mais retorno, pois já ultrapassamos o limite do admissível e o processo está em franco andamento, porém, ainda é possível minimizar os seus efeitos. Entretanto, a conta a ser paga certamente será “muito cara” e, a princípio ninguém vai querer pagar. Assim, o tempo passa e nós ficamos na mesma situação, temos um problema que não podemos resolver, mas que podemos minimizar, porém como isso custa caro, nós não fazemos nada e a situação só tende a piorar.
Desta forma, vamos empurrando com a barriga até onde Deus quiser. Que bom que até aqui Deus esteve do nosso lado e segurou as pontas, mas até quando isso vai ser possível?
É preciso que se pare de especular entorno do quanto vai custar e de quem vai pagar, pois todos já estão pagando muito mais caro do que deveriam efetivamente pagar se alguém já tivesse se manifestado em prol da vida e do planeta. Não adianta discutir os custos, é preciso que sejam resolvidos os problemas. Os países ricos, que até aqui usaram e abusaram do direito de poluir e degradar, que até aqui utilizaram os recursos naturais indiscriminadamente, que até aqui foram os que mais produziram danos ambientais e que até aqui são os maiores culpados pelo atual estado de coisas, devem ser responsabilizados e devem efetivamente pagar pelos custos da tentativa de recuperação do planeta.
Não há como pensar diferente, sendo assim, não há o que discutir. As Entidades Internacionais Organizadas, particularmente a ONU, têm que exigir que os países ricos assumam a responsabilidade pelos acontecimentos e comecem a grande empreitada de tentar minimizar os danos causados ao planeta. Eles poderão perder alguma coisa, economicamente, mas continuarão sendo países ricos. Entretanto, se nada for feito, eles não só deixarão de ser ricos, como, da mesma maneira que os pobres, eles deixarão de existir. Será que é tão difícil entender esta questão? Temos apenas duas alternativas: ou tentamos salvar o planeta custe o que custar, graças ao pagamento de quem pode pagar ou morremos todos, independente da condição econômica que tenhamos.
Os ricos e os pobres têm que se unir em torno da primeira alternativa, porque esta, além de ser única alternativa economicamente viável é também a única que poderá garantir a continuidade da espécie humana e do planeta. Os pobres se quiserem viver, têm que pressionar os ricos para que cumpram sua obrigação e os ricos, se quiserem viver, têm que pagar todas as contas que forem necessárias.
Em quanto isso, Deus, que segundo Einstein, não joga dados, está só observando o total acumulado das apostas e deixando que nós, pobres mortais, joguemos os dados por nossa conta. Não tenho dúvidas de que a Natureza não está contra o homem, porém, por outro lado, tenho certeza de que ela está do lado de Deus. Enquanto isso, a maioria dos homens de Poder continua rezando de braços cruzados ou com as mãos fechadas dentro dos bolsos só para ver o que acontece.
Lamento informar, mas quem continuar apostando na Mágica da Ciência vai perder e quem continuar esperando a Boa Vontade de Deus também, porque a Ciência já jogou a toalha e Deus, pelo menos dessa vez, parece que não está querendo tomar nenhum Partido. Aguardemos os próximos acontecimentos, se ainda houver tempo...

Luiz Eduardo Corrêa Lima

A IDÉIA DA QUALIDADE DE VIDA

A IDÉIA DA QUALIDADE DE VIDA

Luiz Eduardo Corrêa Lima

A expressão “qualidade de vida”, hoje muito repetida em todos os meios sociais, apresenta, além da sua sonoridade agradável, dois conceitos fundamentais implícitos em seu significado. O primeiro desses conceitos diz respeito à vida, aos seres vivos e à permanência dos seres vivos e da vida no planeta. O segundo conceito diz respeito à qualidade, à idéia de ser melhor e da permanência na condição de superior.
Esses dois conceitos, se entendidos amplamente, implicam em tornar a vida dos seres vivos (inclusive e principalmente o homem) e do planeta, na melhor condição possível. É preciso tentar manter a melhor condição de vida ao longo do tempo e, dentro do possível, procurar melhorá-la ainda mais.
Obviamente, é muito difícil manter e melhorar a qualidade de vida, principalmente num mundo conturbado por guerras absurdas e por conflitos injustificáveis. Mais difícil ainda, num país como o nosso, cheio de contrastes naturais e sociais. Porém, essa é uma “necessidade” (condição) da sociedade humana e da modernidade e, ainda que não concordemos em tese, não podemos nos furtar a isso na prática. O “monstro” tem, lamentavelmente, sido muito maior do que nós.
Mas, ainda assim, temos que continuar trabalhando para melhorar a qualidade de vida, embora não estejamos conseguindo caminhar muito nesse sentido. Isso acontece, porque estamos, sociologicamente, entendendo as coisas de uma forma errada e, por conta disso, estamos também definindo posições erradas.
Ao que parece, a palavra conforto, que indica bem-estar, é o melhor sinônimo sociológico para a expressão “qualidade de vida”. Mas, por outro lado, certamente, não é este o conceito biológico-naturalístico para esta expressão. Vamos discutir um pouco sobre isso, para vermos de qual das duas maneiras deveremos passar a entender e utilizar a palavra conforto.
Do ponto de vista biológico, a “qualidade de vida” consiste numa série de condições, que variam desde o ambiente básico onde a espécie em questão vive, alimenta-se, reproduz-se, desenvolve-se e relaciona-se com outras espécies, até o bem-estar material que pode vir a beneficiá-la. Quer dizer, o conforto é apenas uma parte do todo, primeiro é preciso estar vivo e bem, para depois se pensar em ter conforto.
Por exemplo, a qualidade do ar ou da água não são questões de bem estar material, mas sim necessidades básicas para os organismos vivos (inclusive o homem) que precisam estar enquadrados dentro da qualidade de vida que se quer ter. Ar puro e água limpa não são apenas confortáveis, são necessários à vida. Não importa se a água é filtrada ou se o ar é refrigerado, o que importa é que ambos existam para se manter a vida.
Os adjetivos não são vitais, os substantivos é que são. Não adianta adjetivar (qualificar) o que não existe. Sem água e sem ar a vida se extingue e pronto. Numa condição sem água e sem ar, não há como avaliar se a vida está boa ou ruim, simplesmente porque, dessa maneira não existirá vida.
O conforto é acessório, viver é que é essencial. Não adianta ter conforto, se não estivermos em condição de desfrutá-lo. Precisamos garantir a vida e depois, se possível, poderemos torná-la mais agradável (confortável). Essa inversão de valores, que norteia a vida moderna, tem que ser banida do pensamento humano.
Hoje o moderno é falar do pós-moderno, mas, ao que parece não há nada de mais primitivo do que aquilo que se chama de “moderno”. Se quisermos de fato atingir a pós-modernidade é preciso que primeiro respeitemos as questões primitivas e que atinjamos a modernidade de fato. Nossa civilização precisa por o “pé no chão”e “acordar”, pois aquilo que temos chamado, ao longo do tempo, de modernidade, talvez, seja mais um dos grandes males sociológicos, que atuam na degradação da qualidade de vida do homem e do planeta como um todo.
A qualidade de vida do homem tem que estar relacionada com os valores naturais básicos, anteriormente aos valores sócio-culturais que são secundários. O termo secundário na sentença anterior foi colocado com a intenção exata de significar “menos importante”, porém não pretendo admitir que os valores sócio-culturais sejam irrelevantes. E digo mais, a relevância desses valores será cada vez maior, quanto maior for a importância dada à vida.
É preciso que se entenda, de uma vez por todas, que viver é fundamental e que, antes de qualquer coisa, o mais importante vai ser sempre continuar vivendo. Qualquer outro aspecto que não seja a vida em si é acessório. Por melhor que seja ou por mais importante que possa parecer esse aspecto, ele será sempre acessório e dependerá sempre da existência da vida para poder ser utilizado de alguma forma e demonstrar a sua importância e o seu valor.
A importância a ser atribuída aos valores sócio-culturais deve ser menor para a vida do homem e de qualquer outra espécie, que as suas respectivas condições orgânicas. Mais importante que o ninho do passarinho é o passarinho em si. Da mesma forma, mais importante que a casa do homem é o homem em si. Não adianta começar cuidando dos acessórios, primeiramente tem que se cuidar do essencial (fundamental) e no que tange à vida, o fundamental é sempre o organismo vivo.
No caso em questão, organismo humano, vamos imaginar a seguinte situação: um homem rico e culto, com todas as condições sócio-econômicas satisfeitas, encontra-se perdido no meio do Deserto do Saara. Qual a qualidade de vida desse homem? No Saara, um beduíno local, certamente terá melhor qualidade de vida que qualquer outro homem, pois ele está adaptado às condições locais. Conhece todo o ecossistema à sua volta e sabe o que pode e o que não pode fazer. De nada adianta a cultura e o dinheiro do homem rico no Saara, assim como quase nada da cultura do beduíno adiantaria para ele numa cidade grande.
Em suma, o conceito de qualidade de vida perpassa por vários aspectos e transcende a fronteira do bem-estar estritamente material. Do jeito que as coisas estão caminhando, será muito difícil atingir e manter a qualidade de vida para nós humanos, pois estamos muito preocupados com o conforto e estamos esquecendo outros valores. Para nós, viver bem, passou a ser sinônimo de viver confortavelmente, mas esta não é necessariamente uma verdade, pois ter conforto é bom, porém não é essencial. O essencial é viver, a confortabilidade é uma qualidade desejável, porém acessória à condição do ser vivo. É preciso que nos atentemos para esse aspecto.
Nossa vida melhor, nem sempre depende, da casa melhor, do carro melhor, do computador melhor. Às vezes, depende apenas de acampar na floresta, ir à praia, andar a pé, fazer cálculos mentais e outras coisas, às vezes, mais “desconfortáveis”. O conforto deve ser um objetivo a ser alcançado, desde que estejam satisfeitas outras condições básicas de maior significado para a manutenção da qualidade de vida.
A própria seleção natural leva os organismos vivos a procurar condições cada vez melhores (mais favoráveis) para a sua manutenção. No entanto, a seleção natural não permite que os organismos vivos se mantenham totalmente longe de uma busca por condições melhores. Ao que parece, a vida procura, cada vez mais, viver. O conforto ideal é permanecer vivo, ainda que sociologicamente isso represente um desconforto, pois é uma eterna luta pela manutenção da condição de organismo vivo.

A Questão da Monocultura do Eucalipto no Vale do Paraíba

A Questão da Monocultura de Eucalipto no Vale do Paraíba

Luiz Eduardo Corrêa Lima

Já faz alguns anos, 20 pelo menos, que a região do Vale do Paraíba vem sendo “invadida” pelas “florestas plantadas de eucaliptos”. No início eram várias as empresas que atuavam na área: Florin, Dezorzi, Suzano, Papel Simão, mas hoje tudo é praticamente de uma única empresa, a Votorantim (VPC). Embora o número de empresas que atuam no setor tenha diminuído, o problema em si tem aumentado muito e agora atingiu proporções sem precedentes, haja vista que hoje existem mais de 300 fazendas na região com plantações significativas de eucaliptos. Alguns municípios da região têm mais áreas plantadas com eucalipto do que com qualquer outro uso ocupacional.
Quero deixar aqui claramente exposto que não vou defender uma posição contrária ou a favor do plantio de eucalipto no mundo, vou apenas tentar discutir o problema no Vale do Paraíba, do ponto de vista histórico, social e ambiental. Não vou fazer sensacionalismo e nem provocar uma “guerra fria” sobre o assunto, vou apenas e tão somente me ater aos fatos e a partir deles concluir.
O eucalipto foi introduzido no Brasil na década de 1930. Isso quer dizer que os bisavôs da maioria das pessoas hoje vivas, nunca viram, se quer, um pé de eucalipto, pelo menos aqui no Brasil. Desde então se passou a plantar eucalipto para a produção de carvão vegetal, depois como essência madeireira e mais recentemente se descobriu também sua aplicabilidade como matéria prima na produção de papel, além de sempre ter sido também empregado como terapêutico na área da saúde e como madeiramento estrutural na área da construção civil. Quer dizer, o eucalipto é realmente uma árvore de várias utilidades comerciais e de grande valor social e econômico.
Na época em que o eucalipto aqui chegou, nós ainda não tínhamos nenhum conhecimento acerca do que representava, do ponto de vista ambiental, a introdução de organismos exóticos e nem imaginávamos que o eucalipto fosse uma essência tão fortemente competitiva e que, além de tudo, exigia muita água do ambiente onde vivia. Nós apenas sabíamos que o eucalipto produzia uma madeira reta e bastante uniforme para ser usada como lenha, ou na carpintaria e na marcenaria.
Hoje nós temos muitas informações sobre o eucalipto, inclusive a sua capacidade de impedir que outras plantas se instalem e se desenvolvam nos locais onde ele se encontra, devido a sua capacidade competitiva. Sua exigência acentuada de água, principalmente nos primeiros anos de vida, que faz com que suas raízes pivotantes procurem água cada vez mais fundo, secando, ao longo do tempo, o ambiente à sua volta.
Ora, o Vale do Paraíba, como o nome diz é um vale banhado pelas águas do Rio Paraíba do Sul e seus afluentes e constitui-se numa região primitivamente plana e alagadiça. A vinda do eucalipto mudou um pouco essa condição, pois as áreas alagadiças foram desaparecendo, até porque uma planta como o eucalipto não se desenvolve bem num terreno alagado.
Entretanto, a condição hídrica do Vale do Paraíba e consequentemente o seu solo há muito tempo não são as mesmas do início (estado primitivo), por conta de sucessivos usos indevidos. Primeiro foram os cafezais, depois foi o pisoteio pelo gado leiteiro e o plantio da braquiária como forrageira para alimentar esse gado. O solo exauriu-se e em muitas áreas da região estagnou-se totalmente, caminhando para a desertificação e inviabilizando qualquer tipo de uso, além do industrial ou do imobiliário.
A História do Vale do Paraíba nos mostra que sempre tratamos do solo e da água abundante na região de maneira errada. Destruímos toda a Floresta Primitiva da calha do vale e se também não destruímos totalmente as Florestas de encosta das Serras do Mar e da Mantiqueira foi por causa do difícil acesso a algumas áreas.
Pouco sobrou do estado primitivo e esse pouco se encontra exatamente nas encostas das serras, pois no vale propriamente dito, toda a vegetação primitiva desapareceu. Por outro lado, mesmo os processos sucessórios naturais que se desenvolveram ao longo do tempo nas áreas abandonadas, levaram a formação de uma vegetação muito diferente daquela que anteriormente existiu na região. Em outro trabalho que publiquei (LIMA, 1989), chamei essa vegetação estranha de “cerrado valeparaibano”.
Obviamente o eucalipto não tem culpa nenhuma desses fatos, porque as fazendas com o solo exaurido e a carência de água já estavam ocorrendo na região por conta do uso indevido histórico, muito antes da chegada do eucalipto. Mas, de qualquer forma, implantar a monocultura de eucalipto numa região com as características que o Vale do Paraíba apresenta hoje é o mesmo que “tentar apagar um incêndio colocando gasolina”, ou seja, isso só aumenta o problema e o risco de desertificação.
É claro que as empresas que exploram o eucalipto têm recuperado muitas áreas e isso seria muito bom se não fosse plantado o próprio eucalipto nessas áreas ou se fosse deixada alguma coisa sobre o solo posteriormente. Quando acaba o ciclo proposto, em torno de 21 anos, se o local onde se plantou o eucalipto for novamente recuperado e plantado tudo bem. Entretanto, não é isso que acontece e depois da última retirada da madeira, dificilmente nascerá qualquer coisa naquela área, pois o solo volta a ficar totalmente incapaz de manter qualquer cultura. Assim, o processo de desertificação desencadeia-se na área.
No início da década de 1990 tive a oportunidade de escrever um pequeno artigo (LIMA, 1992), onde chamei a atenção para a desertificação na região e sugeri algumas coisas a serem feitas para minimizar o problema. De lá para cá, nada mudou. Ou melhor, quase 15 anos depois, mudou sim, certamente a situação está muito pior do que antes porque existem muito mais áreas abandonadas e nada foi feito em relação à questão.
Nosso país é o número 1 do mundo em biodiversidade natural, nada se compara ao Brasil no que diz respeito as diferentes formas de organismos vivos do planeta. Será que nós não podemos encontrar uma essência nativa menos exigente que o eucalipto para suprir e quem sabe até superar os múltiplos usos do eucalipto para o bem do Brasil, da manutenção das florestas nativas brasileiras e quem sabe até da humanidade.
No que diz respeito ao nosso Vale do Paraíba acho que transcendemos o limite do possível e temos que começar a frear a monocultura de eucalipto na região, principalmente por conta da fragilidade ambiental em conseqüência dos erros históricos. No passado não sabíamos que fazíamos errado, nós apenas errávamos. Mas hoje, temos muitas informações e todos os motivos para não errarmos mais. O interesse estritamente econômico de alguns pode nos levar a inviabilidade social e ambiental de toda a região.
Florestas plantadas só devem existir em áreas já degradadas e o Vale do Paraíba como tantas outras áreas nesse país são áreas degradadas e podem abrigar florestas plantadas. Entretanto é fundamental que compatibilize a cultura que se quer plantar com as condições biogeoquímicas e climáticas da região. O eucalipto por vários aspectos não se presta à região do Vale do Paraíba, assim como outras culturas não se prestam a outras regiões.
Apenas os empresários e os comerciantes do produto conseguem ganhar com o plantio do eucalipto. Mesmo a geração de empregos no setor é muito pequena e o nível desses empregos é baixíssimo. Além disso, alguns municípios se quer ganham alguma coisa com o plantio em seus territórios, pois as sedes das fábricas e distribuidoras das toras de madeira estão localizadas em outros municípios e todo o imposto vai para esses outros municípios.
O que está faltando nesse país é um projeto que viabilize novas tecnologias a partir da exploração de espécies nativas que possam ser economicamente viáveis. Ao invés de ficarmos imitando o resto do mundo nas coisas erradas, por que não desenvolvemos tecnologias novas com coisas nossas. Não é possível que não se encontre uma planta na flora brasileira que não possa fazer tudo o que o eucalipto faz, sem causar os problemas que ele causa. Certamente essa planta existe, o que precisamos é trabalhar no sentido de procurá-la e encontrá-la.
Há um ditado que diz que muitas vezes “o barato sai caro”. Plantar eucalipto pode ser aparentemente mais barato, entretanto, ao longo do tempo o preço a ser pago não compensará a economia obtida no início. Quem continuar duvidando que pague para ver. Mas eu, humildemente, recomendo que se reavalie essa forte tendência de achar que o eucalipto é a solução de todos os problemas humanos. No Brasil, em geral e no Vale do Paraíba, particularmente, o eucalipto só tem trazido muito mais problemas do que soluções.
De qualquer forma, entre o nada e o eucalipto, que fique o eucalipto, pois qualquer coisa é sempre melhor do que nada, mas é preciso que não se corte a floresta periodicamente. É preciso que se deixe a floresta seguir o seu curso. Isto é, como cobertura do solo, por pior que seja o eucalipto ele ajuda e algumas décadas depois o sub-bosque que se forma completa o serviço, mas é claro que, por melhor que possa parecer, nada será como antes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LIMA, L.E.C., Considerações Ecológicas sobre o Vale do Paraíba, Fundação Nacional do Tropeirismo, Caçapava e Centro Cultural Objetivo, São Paulo. 1989.

LIMA, L.E.C., A Desertificação do Vale, Jornal O Vale Paraibano, N˚. 11016, São José dos Campos, 10 de julho de 1992.

Luiz Eduardo Corrêa Lima